quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O CENSO DO POVO JUDEU

Recentemente a mídia (judaica) divulgou o número de judeus no mundo. 

As informações, procedentes da Universidade Hebraica de Jerusalém, computam 14,7 milhões de judeus. Destes, 6,6 milhões, em Israel e 5,7 milhões, nos Estados Unidos. Em terceiro, quarto e quinto lugares, com números bem inferiores, vem a França, o Canadá e o Reino Unido. A referida instituição traz ainda a taxa de crescimento dos judeus, na casa dos 0,7%, inferior à taxa de crescimento populacional global, de 1,1%. 

Os números consideram qualquer indivíduo que se julgue judeu.

A título de informação, até para que tenhamos alguns parâmetros comparativos, Revista Exame, de junho de 2013, publicou uma reportagem (com o sugestivo título "Há menos judeus do que em 1938, 70 anos após o Holocausto"), onde informa, em nome do demógrafo e pesquisador italiano, também da Universidade Hebraica de Jerusalém, que, antes da Segunda Grande Guerra Mundial (1939), o número de judeus girava em torno dos 16,5 milhões. Em 1945, ano do final da Guerra, este número baixou para 11 milhões. (O Holocausto vitimou 6 milhões de judeus, destes, mais de um milhão de crianças).

Segundo o  Museu do Holocausto de Washington, quando os nazistas assumiram o poder, em 1933, havia judeus em todos os países da Europa. Cerca de 9 milhões de judeus viviam em países que seriam afligidos com a ocupação nazista. Na época, as maiores comunidades estavam localizadas no leste europeu, em países como Polônia, União Soviética, Hungria e Romênia, seguidas pelas comunidades da Europa Central (Alemanha, França, Itália, Holanda e Bélgica).

Não podemos deixar de fazer um tributo ao Judaísmo europeu, devastado pelos assassinatos em massa e pelo confisco e pela destruição de seu patrimônio. Lojas, Sinagogas, Ieshivot (Academias de estudo da Torá), queima de livros e cemitérios depredados. Nada escapou à furia nazista.






European Jewish population distribution, ca. 1933 [LCID: eur77040]


O MILAGRE DA ETERNIDADE DO JUDEU


O livro de Bereshit (Gênesis) 15:5 (o primeiro dos cinco livros da Torá - a Bíblia judaica) traz que D-us tirou o patriarca Avraham (Abraão) para fora de sua tenda e lhe diz: "Olhe para os céus e conte as estrelas. Veja se pode contá-las. E continua: Assim será sua descendência!".

A bênção acima recebida por Abraão, chamada na Torá de Birkat Hazêra (Bênção da Descendência), trata da continuidade (e, porque não, da eternidade) do povo judeu. Assim como não é possível contar as estrelas dos céus, D-us prometeu a Abraão que seus descendentes, serão tão numerosos, que não poderão ser contados. 

O povo judeu começou muito pequeno - era apenas uma família - a família de Abraão. Quando desceram para o Egito, chefiados por Yaakov (Jacó), o terceiro patriarca, neto de Abraão, ainda somavam 70 pessoas. Cerca de 120 anos depois, quando foram escravizados, a proliferação dos judeus no Egito chamou a atenção do Faraó, que os considerou uma potencial ameaça à integridade territorial do Egito: "Os filhos de Israel estão se tornando muito numerosos e fortes" (Êxodo 1:9). Pelo menos foi essa a desculpa que o Faraó usou para justificar a escravização dos judeus! Por ocasião da saída do Egito, 210 anos depois de sua chegada, já eram milhões. 

Nesses quase três mil e novecentos anos de existência, desde Abraão, os judeus foram vítimas de exílios, perseguições, discriminações, pogroms e holocaustos. A despeito de tudo e de todos, sobreviveram e superaram as crises e as opressões. Surgiram e ressurgiram das cinzas.

Num dos primeiros posts deste blog, discorri, especificamente, sobre a maravilha da eternidade do povo judeu. (Vale a releitura desse post!). Sobre este assunto, o escritor e pensador americano Mark Twain (1835 - 1910) escreveu:

"Os egípcios, os babilônios, os persas ascenderam, encheram o planeta com ruído e esplendor e, em seguida, o seu sonho se enfraqueceu e eles se extinguiram. Outros povos surgiram e levantaram a sua tocha durante um tempo, mas se extinguiram e eles estão na penumbra hoje em dia ou desapareceram. O judeu viu a todos, enganou a todos, e ele é atualmente o que ele sempre foi, sem externar sinais de decadência, sem o abatimento da velhice, sem enfraquecimento das suas partes, sem minguar a sua energia, sem debilitar a sua mente alerta e dinâmica. Tudo é mortal, exceto o judeu. Todas as outras potências desapareceram, mas ele permanece. Qual é o segredo da sua imortalidade?"


Já o convicto católico Leon Tolstoy, em 1908, disse:

"O judeu é o emblema da eternidade. Ele, que nem o massacre, nem a tortura de milhares pode destruir, ele, que nem o fogo, nem a espada, nem a Inquisição foi capaz de eliminar da face da Terra. Ele, que foi o primeiro a apresentar a Revelação Divina, ele que, por tanto tempo, foi o guardião da profecia e que a transmitiu ao resto do mundo. Esta nação não pode ser destruída. O judeu é perpétuo como a própria eternidade".

A bem da verdade, a perenidade do povo judeu é, ainda, fonte de estudos e de uma grande interrogação para muitos estudiosos. Mas, nem tanto para os próprios judeus, que testemunharam ao longo da História muitas tentativas de exterminação, conforme traz a Hagadá de Pessach: "Não somente um (povo) se levantou contra nós (judeus) para nos aniquilar. Mas, em cada geração houve quem tentasse ...".

A historiadora canadense Josephine Bacon complementa que "a sobrevivência do povo judeu através dos tempos tem sido um fenômeno extraordinário e sem paralelo" (Atlas Ilustrado da Civilização Judaica, 1990).

Acreditando ou não, a Benção da Descendência vem se concretizando pelo tempo, mantendo os judeus e, apesar de seguirem na contramão do que seria o curso natural da História, os judeus permaneceram e continuam a escrever a sua História.


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FONTES:

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O "JUDAÍSMO" DE D. PEDRO II

No início do mês de Setembro, os meios de informação se voltaram para a notícia do incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Devorado pelas chamas, o Museu era considerado um patrimônio científico e histórico brasileiro. 

As perdas foram inestimáveis, já que 90% do acervo, cerca de 16 milhões de peças, foi destruído. Entre outras peças, encontravam-se uma das maiores coleções paleontológicas da América Latina, o trono do rei africano Adandozan (1718 - 1818), além de incontáveis itens e coleções, recolhidos, ao longo de seus duzentos anos de existência.

Depois dos primeiros momentos de comoção pela lastimável perda, outra notícia ganhou destaque nos noticiários nacionais e internacionais: A Torá que pertenceu a D. Pedro, e que supostamente teria que estar no Museu, "escapou" quase que milagrosamente da devastação do fogo.

Sobre esse assunto é natural que sejam feitas, pelo menos, duas grandes perguntas: como a Torá foi "parar" no referido Museu, como peça de seu acervo e, a outra, como ela se "salvou"?


Pergaminhos da Torá escapam de incêndio no Museu Nacional


MUSEU NACIONAL


O Museu Nacional foi fundado por D. João VI (1767 - 1826), rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 06 de junho de 1818, com o objetivo de promover o progresso cultural e econômico do país. Inicialmente, recebeu o nome de Museu Real, que funcionava em outro local. Posteriormente foi transferido à sua localização atual, um palácio que serviu de residência à família real até a dissolução do regime monárquico no Brasil, em 1889, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. 

Desde de 1946, o Museu era administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma instituição pública, vinculada ao Ministério da Educação e era considerado o maior da América Latina, em Antropologia e História Natural. 


PERGAMINHOS IVRIÍM


Dentre o acervo relacionado ao referido Museu, integrante da Coleção Egípcia, encontram-se nove rolos de pergaminhos da Torá (a Bíblia judaica), chamados de Pergaminhos Ivriím.


Escritos em Hebraico consonantal quadrático, popularmente chamada de "letra quadrada", pertenceram a D. Pedro II (1825 - 1891), 2º Imperador do Brasil, que os adquiriu por ser um estudioso e admirador do Judaísmo e da Cultura Judaica, numa viagem à Europa e Oriente Médio, entre os anos de 1876 e 1877.

Segundo informações, os pergaminhos, que datam de até mil anos, são pessulim, ou seja, estão em desacordo com a Halachá, a lei judaica. Eles foram confeccionados em couro de novilho, de coloração acastanhada e matizes avermelhadas (os pergaminhos usados nos rolos da Torá nas sinagogas tendem para o creme), costurados com fios de linho (os fios usados na costura dos pergaminhos devem ter origem animal) e compilados com tinta preta, de origem vegetal. A escrita está relativamente preservada.

Devido à importância histórica, foram tombados pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em 1998.


COINCIDÊNCIA OU MILAGRE REVELADO?


Antes do incêndio, os manuscritos foram levados para restauração, do Museu Nacional para a Biblioteca do Horto, na Quinta da Boa Vista, e colocados na seção de Obras Raras. Coincidência ou milagre, os pergaminhos foram salvos da destruição certa.

D. PEDRO II


D. Pedro II possuía uma ligação profunda com o Judaísmo e com os judeus, ao ponto de ser fluente na língua hebraica e era profundo conhecedor da Torá. Inúmeras são as histórias que constatam essa ligação. 

Coroado aos 15 anos, D. Pedro II era um amante da cultura e das artes. Ainda na infância mostrou talento para as línguas. Dominava o Inglês, o Francês, o Italiano, o Grego e o Latim. Até aqui, nada demais, afinal ser poliglota era quase que uma obrigação para quem no futuro seria coroado rei. O que poucos sabem é que D. Pedro II era fluente em Hebraico, mais, era seu idioma predileto. Ele gostava de falar, ler, ouvir e escrever neste idioma.

O interesse do soberano pelo Hebraico começou quase por acaso. Certa vez, ao caminhar pelos jardins do palácio encontrou um dicionário de Hebraico (segundo outra versão, o Imperador encontrou uma Bíblia, em Hebraico). Gostou muito. D. Pedro contratou um professor para que o ensinasse. Dizem que tal apego pela cultura judaica veio como forma de compensar as injustiças sofridas pelos judeus em Portugal na época da Inquisição, quando inclusive, os judeus foram expulsos ou convertidos à força, em 1496. 

Outro caso.

Conta-se que certa vez, ao oferecer uma recepção aos judeus da Alsácia (França), o Imperador recebeu seus convidados usando o Hebraico. Ao perceber que não falavam o idioma falou:
"Que espécie de judeus são vocês que não falam a língua sagrada!".

D. Pedro II queria estudar a Bíblia na sua língua original, o Hebraico. O Imperador traduziu alguns livros do Tanachdentre eles, o Livro de Jó e o Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos), do Hebraico para o Grego, para o Latim e para o Português.

Eça de Queiroz (1845 - 1900), um dos mais importantes escritores portugueses, publicou um artigo, em 1872, ridicularizando o Imperador por sua paixão pelo Hebraico. Ele escreveu: "Sua Majestade, conhecido pela modéstia nos costumes e nas iguarias que impõe no palácio real, tem na verdade uma gula especial e única - a língua hebraica. Por não levar acompanhante em suas longas e tediosas viagens por trem, assim que chega, faminto, ao seu destino, sendo festivamente recebido, só sabe balbuciar: 'Hebraico!'".

Eça de Queiroz continuou destilando ironias:

"Certa vez, quando recebido com pompa nos palácios reais ingleses e solicitado a exprimir suas vontades e preferências, exclamou com voz sofrida: 'Hebraico!'. Os oficiais da recepção, espantados, tiveram a genial ideia de levar o Imperador a uma Sinagoga. Rodeado por judeus imersos em suas orações, pôde deglutir D. Pedro, com muita curiosidade e satisfação, porções sem fim de Hebraico".


SINAGOGAS


A historiadora Sonia Sales escreveu que em todos os lugares que D. Pedro II visitava, procurava ir às Sinagogas. Apesar de manter sua postura modesta aos locais, causava deslumbre ao se dirigir num Hebraico fluente aos judeus, apesar de não ser judeu.


LIBERDADE RELIGIOSA


D. Pedro II consolidou a liberdade religiosa, iniciada por seu pai, D. Pedro I. Foi de sua autoria o decreto de lei, que data de 28 de Janeiro de 1873, oficializando a entidade União Israelita do Brasil, que, mais tarde, se tornou a importante Sinagoga Sefaradita Shel Guemilut Chassadim, no Rio de Janeiro.



VISITA A JERUSALÉM


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                                              D. Pedro II em visita a Jerusalém


Em 1876, numa visita à Terra Santa, D. Pedro IIparticipou de um Kabalat Shabat (oração de recebimento do Shabat), no Kotel Hamaaravi (Muro das Lamentações). E, foi, provavelmente, nesta viagem, que adquiriu os rolos da Torá, que fazem parte do acervo do Museu Nacional.

EXÍLIO E FALECIMENTO


D. Pedro reinou de 1841 a 1889.

Deposto, por ocasião da Proclamação da República (1889), pelo Marechal Deodoro da Fonseca, exilou-se em Paris, onde veio a falecer 2 anos depois, em 5 de Dezembro de 1891.

No livro "O Hebraico vivo através das gerações", publicado em 1992, o professor Shlomo Haramati escreveu:

 "Não há dúvidas que seu profundo interesse pelo Hebraico, em seus últimos anos de vida, resultava de ser esta, a língua de um povo que vivia na Diáspora, estando ele próprio solitário e longe de sua pátria".

Por ocasião de sua morte, o escritor e biógrafo Israel Isser Goldblum (1843 -1925), escreveu em artigo publicado no jornal Hatsfirá (A Sirene), editado em Varsóvia (Polônia):

"Bem aventurados aqueles que viram D. Pedro II, Imperador do Brasil, e ouviram-no falar a língua sagrada. Bem aventurados todos aqueles que o saudaram e foram por ele saudados".



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FONTES:

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45391771

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/pergaminhos-da-tora-escapam-de-incendio-no-museu-nacional

SALES, Sonia. D. Pedro e seus amigos judeus. 2011.





segunda-feira, 3 de setembro de 2018

18 DE ELUL 2/2

CHASSIDISMO

Para melhor compreensão do texto, leia o post anterior 18 de Elul 1/2.

Para desassossego dos judeus, o  Massacre de Chmielnicki não foi a única onda de terror que assombrou as comunidades judaicas naquela época e região. Vez por outra, eles enfrentavam pogroms, perseguições e muita discriminação. Muito menos, as sementes dos falsos Messias foram extirpadas com Shabtai Tzvi. Anos mais tarde, os judeus assistiram ao surgimento de Jacob Frank (1726 - 1791), outro que se auto-proclamou o Redentor do povo e que, como seu antecessor, teve um final não menos trágico (Frank converteu-se ao Catolicismo).

Os judeus viviam uma vida miserável. Além da pobreza absoluta, enfrentaram dentro do seio do povo judeu um outro "fantasma": o distanciamento existente entre os estudiosos da Torá e os judeus mais simples, os chamados iletrados. A lacuna entre essas classes de judeus era enorme. Na época, era comum a ida de "pregadores" - os Maguidim, às sinagogas para admoestar o povo por suas ações, somando ainda mais sofrimento e culpa.

O Chassidismo, inicialmente na figura de Baal Shem Tov e do grupo dos Tzadikim Nistarim (justos ocultos), vieram para quebrar este paradigma e muitos outros.  Elevar o status do considerado judeu "simples",  às vezes, confundido com o "sem valor". Dar-lhes autoestima. Fazê-los acreditar que também eram queridos aos Olhos de D-us.

Mas o Chassidismo foi muito além. É verdade que o trabalho era focado nos menos favorecidos e nos iletrados, porém, como sua filosofia atendia, também, às expectativas dos estudiosos da Torá, dando-lhes uma nova perspectiva sobre D-us, o mundo, o ser humano e as mitzvot (mandamentos divinos), muitos eruditos passaram a integrar o movimento. Logo, o movimento chassídico cresceu e espalhou-se por toda a Europa.

Para todos, o Chassidismo era uma filosofia de vida e a própria vida, entrelaçadas. Cada judeu "pegou" aquilo de que ele precisava para crescer espiritualmente e não se deixar abater pelo desespero em virtude das grandes dificuldades materiais. 


CHASSID(IM)


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Chassid (Chassidim, no plural), em Hebraico, pio e observante, é o termo aplicado ao adepto do movimento, que surgiu no século 18 denominado de Chassidut ou Chassidismo. 

BAAL SHEM TOV (1698 - 1760)


Ver a imagem de origem


                  Sinagoga do Baal Shem Tov, em Mezibuz (Ucrânia), destruída pelos nazistas 


Filho único de pais de idade avançada, o pequeno Israel ficou cedo órfão de pai e mãe. Seu pai, o grande tzadik Rebe Eliezer, antes de morrer, deixou-lhe os seguintes ensinamentos, que serviram de linhas mestras ao longo de sua vida. Um, se referia ao temor e, o outro, sobre o amor. 

Sobre o temor, ele ensinou ao filho, o temor a D-us:"Não tema a ninguém, só a D-us Todo Poderoso!". Com relação ao amor, Rabi Eliezer ensinou que este deve ser praticado e disseminado a todos os judeus, indiscriminadamente, não importa onde estejam e em que nível se encontrem. Ele ensinou: "Ame a cada judeu de todo coração e de toda a sua alma!".

Com a morte dos pais, a comunidade judaica assumiu as despesas e a responsabilidade com a educação de Israel.

Israel gostava de isolar-se pelas florestas e campos, onde, em contato com a natureza, estreitava sua relação com D-us, Criador dos céus e da terra. A princípio, este comportamento causou estranheza, mas, com o passar do tempo, os líderes da comunidade acabaram "desistindo" de mudá-lo. Foi numa dessas "idas" à floresta, que encontrou um judeu profundamente concentrado na tefilá. 

Atraído pelas doces melodias e pela Kavaná (literalmente, intenção; num sentido mais profundo e contextualizado, significa que ele rezava com diligência, colocando todo o seu coração e alma, em cada palavra da tefilá), o jovem rapaz passou a frequentar a floresta diariamente, para estudar Torá com o "estranho". 

Muito tempo depois, esse homem foi relacionado ao grupo de Tzadikim Nistarim (justos ocultos), judeus que se passavam por pessoas simples e eram grandes eruditos da Torá.

Depois, o acompanhou,  viajando de cidade em cidade, ensinando Torá e motivando os judeus a seguirem em frente, apesar da situação de escuridão e de tristeza vivida na época. Nessas viagens, Israel Ben Eliezer trabalhou como assistentes de Cheder (escola de meninos), cuja função era a de buscar e levar as crianças da casa para a escola. No trajeto, contava histórias judaicas para despertar no coração das crianças o amor a D-us e Sua Torá. 
Ainda jovem, juntou-se ao grupo de Tzadikim Nistarim, discípulos de Rabi Adam Baal Shem (1680 - 1734). Os ensinamentos obtidos de seu mestre alicerçaram o que futuramente seria chamado de Chassidismo. O Baal Shem Tov herdou vários manuscritos cabalísticos do Rabi Adam Baal Shem.

Israel Ben Eliezer foi casado por duas vezes. Sua primeira esposa morreu logo após o casamento. Com a segunda esposa, Chana, irmã do grande erudito da Torá, Rabi Avraham Guershon Kitover (Polônia), teve dois filhos, Odl e Tzvi Hersch.

Passou longos dez anos de sua vida em reclusão e, segundo contam, recebeu instruções diretamente de Achiá, de Shiló (Hashiloni), profeta da época do Rei David, que aparecia-lhe periodicamente. Em carta enviada a seu aluno Iaakov Iossef Hacohen, ele escreve que as aparições do referido profeta começaram no dia de seu aniversário de 26 anos, no meio da noite, na cidade de Akop.


Somente um justo, da estatura do grande Israel Ben Eliezer, seria merecedor de tal aparição e de receber tais ensinamentos sagrados e esotéricos.

Aos 36 anos, estabeleceu-se em Mezibuz (oeste da Ucrânia) e passou a difundir publicamente a Chassidut, atraíndo discípulos e simpatizantes do movimento. Recebia diariamente a visita de judeus de todas as partes do mundo, que vinham aprender de seus ensinamentos. Foi aí que passou a ser conhecido como Baal Shem, fazedor de milagres e revelador de conhecimentos profundos da Torá.

No dia 6 de Sivan (1º dia de Shavuot), aos 62 anos, Israel Ben Eliezer faleceu, deixando um legado de ensinamentos e grandes histórias, ainda hoje narradas e que inspiram milhares de judeus. No mundo judaico ficou conhecido como Baal Shem Tov, o Mestre do Bom Nome.

O Baal Shem Tov não deixou nenhuma obra escrita, mas seus ensinamentos e feitos foram registrados por seus discípulos, em obras e coletâneas, dentre elas, o livro Keter Shem Tov, publicado em 1794, mais de trinta anos após a morte do grande mestre.

ALGUNS ENSINAMENTOS DO BAAL SHEM TOV


Todas as criaturas são governadas pela Hashgachá Pratit, a Divina Providência. Mesmo uma simples folha derrubada pela brisa, só cai da árvore porque assim foi determinado pelo Criador, para um fim específico (existe intencionalidade nos acontecimentos). Assim, todos os eventos que acontecem no mundo têm um propósito determinado pelo Criador.

Outro ensinamento do mestre chassídico diz respeito à  renovação da Criação com a fala, processo este constante, exatamente como aconteceu nos seis dias da Criação, quando o mundo foi criado com os dez ditos, conforme está escrito no livro de Tehilim, os Salmos de David, no capítulo 119:89: "E permanente é Sua palavra, que ecoa nos céus".

Diferente de qualquer criação humana, que, ao ser completada, o autor se afasta da obra. Como por exemplo: uma pintura, que, ao ser finalizada, existe independente de seu criador (no caso, o pintor). As obras divinas continuam a se sustentar e a existir tão somente por essas 10 falas, repetidas constantemente pelo Criador. Sem elas, essas criações voltariam ao estado inicial antes de serem criadas.

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Devido à riqueza de aprendizado do grande mestre chassídico, Baal Shem Tov, deixaremos para falar do Rabi Shneur Zalman de Liadi, nascido também em 18 de Elul de 1773, no próximo post.

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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

18 DE ELUL 1/2

A magna data judaica de 18 de Elul, (este ano, 29 de agosto) marca o nascimento do grande líder e fundador do movimento chassídico mundial, Rabi Israel Ben Eliezer, o Baal Shem Tov (o Mestre do Bom Nome), em 1698, em Akop, na província da Podólia (Polônia).

Assinala, também, o nascimento de outro grande mestre chassídico e fundador do movimento Chabad, braço do movimento chassídico mundial, Rabi Shneur Zalman, de Liadi, o Admor Hazaken, em 1745, em Liozna, cidade próxima a Lubavitch, na Rússia.

Estes dois acontecimentos, sem dúvida, determinaram o curso do Judaísmo, em suas respectivas épocas, já que a atuação destas personalidades foi de grande importância à continuidade e desenvolvimento do Judaísmo, na medida em que a filosofia chassídica buscava ajudar e fortalecer o alquebrado espírito dos judeus, também do ponto de vista material. 

A influência do movimento chassídico ganhou tamanha proporção que perdura até os dias de hoje em todos os cantos do globo.



Examinemos alguns fatores históricos que antecederam o aparecimento do Chassidismo:


1. MASSACRES DE CHMIELNITZKI (1648 - 1649).



Também chamadas de Guezerot Tach Vetat, em alusão aos anos judaicos em que ocorreram (TACH - 5408 e TAT 5498), foi a denominação dada aos episódios de carnificina e massacres perpetrados contra os judeus e suas comunidades, na Polônia Oriental e na Ucrânia, em consequência da revolta liderada pelo cossaco Bogdan Chmielnicki (1595 - 1657).

Contra os judeus, sim! Pois, por trás do discurso de inquietação social e religiosa por parte dos rebeldes, havia a intenção firme de eliminar os "estranhos" judeus da região. 

Vamos aos fatos!

Os rebeldes (camponeses e cossacos) lutaram contra o sistema de exploração da classe dominante polonesa, vigente na Ucrânia, que, a grosso modo, funcionava da seguinte maneira:

Os nobres poloneses eram proprietários de grandes latifúndios (os feudos) naquele pais. Os judeus arrendavam pequenas extensões de terras ou trabalhavam com administradores dos feudos. Havia uma terceira camada, a dos camponeses, na base desta pirâmide.

Como arrendatários, os judeus estavam à mercê das vontades e exigências dos grandes latifundiários. Quando estes queriam aumentar suas entradas, elevavam aleatoriamente os impostos e as taxas cobradas dos "inquilinos" judeus, o que refletia diretamente (e, negativamente) na relação dos judeus com os agricultores, já que também precisavam repassar os aumentos praticados nos preços dos produtos comercializados (vodka, trigo, etc) para suportar a carga das cotas exigidas pelos senhores feudais. 

Como administradores, os judeus apareciam na linha de frente das decisões dos senhores feudais, sempre ausentes de seus feudos. Muitas dessas decisões causaram revolta e despertaram a ira dos camponeses. Os camponeses viam os judeus como os supervisores do trabalho e os responsabilizavam pela pressão recebida, pelos impostos cobrados, pela cobrança das dívidas, e até pelos castigos aplicados, mesmo que estes agiam em nome de seus patrões. Realmente, os judeus estavam em posição bastante desfavorável.

Se por um lado os judeus sofriam com os ataques, as ofensas e as zombarias dos senhores feudais pelo jeito de ser, de se vestir e pela religião professada, por outro, os judeus padeciam do ódio nutrido pelos camponeses, que os julgavam culpados pela crise econômica e pobreza vivida. Também os camponeses nutriam pelos judeus, grande ódio religioso. 

Como os judeus estavam mais próximos dos camponeses, ficaram vulneráveis e tornaram-se bodes expiatórios dos rebeldes cossacos.

Os massacres extrapolaram os limites da crueldade. Estima-se que mais de 100 mil judeus foram assassinados e 300 comunidades judaicas dizimadas. Na prática, este número representou cerca de 5% da população judaica mundial. Os sobreviventes vagaram sem destino de um lugar a outro, outros tantos foram vendidos como escravos no mercado de escravos do Império Otomano.

Apesar de ser considerado um herói nacional ucraniano, Chmielnicki é considerado um dos mais sinistros opressores do povo judeu. O líder rebelde foi apelidado pelos judeus de Chmiel, o cruel.



(Como foi citado acima, a revolta também teve um motivador religioso, haja vista que os camponeses pertenciam à Igreja Ortodoxa Grega e os senhores feudais, da Igreja Católica Romana. Os senhores feudais queriam impor aos camponeses suas doutrinas religiosas. A falta de liberdade religiosa, somada às grandes dificuldades e privasões passadas pelos camponeses desencadearam a revolta).

As Guezerot Tach Vetat serão tema de um outro post mais detalhado.

2. SHABTAI TZVI (1626 - 1676), O FALSO MESSIAS.



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O sofrimento passado, logo após as Guezerot Tach Vetat reacendeu nos judeus suas aspirações e preces pela vinda do Messias (Mashiach). Os massacres foram considerados pelos eruditos e cabalistas judeus como as "dores do parto" para o aparecimento do tão esperado redentor. E, foi, neste terreno fértil, que impostores insurgiram se autoproclamando os salvadores do povo judeu.

Shabtai Tzvi foi o primeiro desta lista.

Nascido em Esmirna, na Turquia, em 1626, Shabtai Tzvi, ainda jovem destacou-se como um brilhante estudioso do Talmud e da Cabala. Ainda na infância, já demonstrava oscilações de humor (Talvez os psiquiatras e estudiosos da área o diagnosticassem com transtorno bipolar de humor). Frequentemente ouvia vozes que o anunciavam como o Goel - o Salvador (outra patologia!).

Imbuído desta certeza, começou a agir como se fosse o Messias, o que despertou muitas ressalvas dos rabinos de Esmirna, que imputaram-lhe um Rechem (excomunhão legal). Shabtai Tzvi deixou Esmirna, em 1654 e passou a visitar as comunidades judaicas do Mediterrânea, onde atraiu seguidores. Shabtai Tzvi estabeleceu residência em Salômnica (Grécia).

O carisma de Shabtai Tzvi não evitou que sua doença psicológica aparecesse em diversas ocasiões. Certa vez, convidou estudiosos da Torá para uma refeição e, lá, ergueu uma chupá (pálio nupcial), com um Sêfer Torá nas mãos, anunciou seu casamento com a Torá. O fato despertou a ira dos rabinos e ele teve que, mais vez, procurar outro destino para morar.

Shabtai Tzvi chegou em Jerusalém, onde mostrou sua grande sapiência nos assuntos da Torá.  Em 1664, casou-se com a igualmente doente Sará, comparando-se com o profeta Hoshea (Oséias), que fora ordenado por D-us de realizar tal ato.

Ao voltar,  ele passou pela casa do jovem e gênio da Torá, Natan, o Ashkenazí (Natan de Gaza). Shabtai Tzvi o convenceu de que era o Messias. Natan começou a serví-lo como o "profeta do Messias", cuja função era a de anunciar a chegada do Redentor de Israel.

A notícia da chegada do Messias espalhou-se imediatamente. Na Polônia, muitos judeus abandonaram suas casas e venderam suas posses, dedicando-se quase que exclusivamente ao estudo da Torá, Comunidades na Alemanha, na Holanda e no Iêmen, dentre outras, comemoraram a chegada do tão esperado redentor. A euforia era enorme!

Em 1666, quando Shabtai Tzvi chegou na capital do Império Otomano para tirar a coroa da cabeça do Sultão, foi preso. Lá, converteu-se ao Islamismo, adotando o nome de Aziz Mechmed Efendi. O falso Messias recebeu uma pensão do sultão até a sua morte, em 1676.

A conversão de Shabtai Tzvi foi catastrófica para os judeus. Uma das grandes consequências do fracasso de Shabtai Tzvi, na vida religiosa e, que, influenciou diretamente na formação de um movimento contrário ao Chassidismo, foi a proibição do estudo e difusão da Cabala.


ANTECIPANDO A CURA ANTES DE MESMO DE APARECER A DOENÇA



Como já falado anteriormente no post A importância da História Judaica: "A bem da verdade, a História Judaica desafia o curso natural da História do mundo, pois nenhum povo conseguiu permanecer sem perder sua vitalidade e seua identidade, mesmo sofrendo perseguições e exílios, como os judeus". Essa colocação pode ser ratificada, de certa forma, pela regra: "Hakadosh Baruch Hu makdim refuá lamaká" - D-us antecipa a cura, antes mesmo da doença aparecer. Ou seja, além da Hashgachá Pratit, da Providência Divina, que permeia os nossos eventos históricos, ainda há a preocupação de trazer a solução antes do problema.

Além de situar historicamente o leitor, toda esta "longa" introdução é para nos informar sobre a descida dos mundos espirituais dos ensinamentos do Chassidismo em geral e Chassidismo Chabad, em particular e de seus grande mestres, Rabi Israel Baal Shem Tov e o Rabi Shneur Zalman de Liadi, o Alter Rebe, trazendo o bálsamo espiritual e material àqueles que mais precisaram. Assuntos do próximo post.

Espero que tenham gostado.
Até lá!


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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O REI SALOMÃO

Considerado o terceiro rei do unificado Reino de Israel e o segundo rei da Casa de David, Salomão reinou por aproximadamente 40 anos, de 967 AEC a 928 AEC. Diferentemente do reinado de seu pai e antecessor, que foi marcado por batalhas e muito sangue, Salomão herdou o maior e mais seguro reino judeu da História Judaica. 

O período do reinado de Salomão é considerado a "Época de Ouro" do reinado judaico, por ser caracterizado pela paz e pela tranquilidade, durante o qual "Judá e Israel viviam em segurança, cada qual debaixo de sua videira e debaixo de sua figueira" (1 Reis 5:5).



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SALOMÃO: O MAIS SÁBIO DE TODOS OS HOMENS


Segundo filho de Batsheva e o mais jovem dos filhos do Rei David, Salomão era conhecido por sua sabedoria. Ele é considerado como o mais sábio de todos os homens. O livro dos Reis 1 (Tanach) conta que, certa vez, o Rei foi a Guivon (cidade ao norte de Jerusalém) para fazer sacrifícios a D-us, quando Este apareceu-lhe em um sonho, à noite. No sonho, D-us deu-lhe a opção de escolher qualquer benesse. 

Por se considerar um jovem inexperiente para ocupar um cargo tão importante (segundo fontes sagradas, judaicas, Salomão tinha apenas 12 anos quando subiu ao trono de Israel), ele escolheu ter um "coração entendido" (Lev Shomea) para julgar o povo de Israel. Ele também pediu sabedoria para diferenciar entre o bem e o mal.

Salomão foi atendido. 

D-us concedeu-lhe elevada sabedoria, acima de qualquer outro ser humano, ao ponto de compreender a explicação de todos os mandamentos divinos (as Mitzvot). Sua fama espalhou-se pelo mundo inteiro. Salomão recebia a visita de reis que vinham escutar e desfrutar de sua vasta erudição, inclusive no campo do conhecimento secular e das ciências. 

O Rei Salomão compôs 3.000 provérbios e 1.005 poemas, além de discorrer sobre as árvores, os animais, as aves, os répteis e os peixes. 


A RAINHA DE SABÁ

Certa vez, Salomão recebeu a ilustre visita da Rainha de Sabá (hoje em dia, existe uma tradição de que os judeus etíopes descendem da união entre o Rei Salomão e a Rainha de Sabá), que veio com o intuito de "testar" sua sabedoria. A Rainha propôs que Salomão decifrasse o seguinte enigma:

"Uma mulher disse ao seu filho: 'Seu pai é meu pai, seu avô é meu marido, você é meu filho e eu sou sua irmã. Quem sou eu?'"

Salomão respondeu: "As filhas de Lot!" 

[Segundo relatado na Torá (a Bíblia judaica), no livro de Bereshit (Gênesis), após saírem das recém-destruídas cidades de Sodoma e Gomorra, as duas filhas de Lot se juntaram a ele, numa relação incestuosa, para tentar repovoar o mundo. Desta união, nasceram Amon, que formou o povo dos Amonitas e Moav, que formou o povo dos Moabitas, ambos, habitantes do leste do rio Jordão].

A Rainha de Sabá voltou para casa impressionada com o Rei.


O JULGAMENTO DE SALOMÃO


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Um dos mais emblemáticos e conhecidos julgamentos de Salomão aconteceu logo após o episódio do sonho, em Guivon, quando duas mulheres (prostitutas) o procuraram para que resolvesse o caso de uma criança, que ambas alegavam ser seu filho.

"Eu e esta mulher demos à luz a uma criança (no mesmo momento). À noite, o filho dela morreu. Ela se levantou e tirou o meu filho do meu lado e o trocou pela criança morta. Quando me levantei para amamentar, pela manhã, percebi a troca".

A outra mulher retrucou: "Isto não é verdade! A criança é minha!".

Salomão ouviu atentamente o caso e mandou buscar uma espada. A solução seria partir a criança em duas metades, uma para cada mulher.

A verdadeira mãe abriu mão de sua parte, desde que a criança permanecesse com vida, enquanto a outra, preferiu a divisão, assim, a criança não pertenceria nem a uma e nem a outra.

Salomão mandou entregar a criança à sua mãe legítima!


A CONSTRUÇÃO DO PRIMEIRO TEMPLO SAGRADO



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O grande feito do reinado de Salomão foi, sem dúvida, a construção do 1º Templo Sagrado - o Santuário de Salomão, concretizando o sonho de seu pai, David. O Templo era o centro da vida judaica. Um local destinado à comunhão do homem com D-us. 

Em sua belíssima construção, foram usados ouro, bronze, pedras e madeiras nobres. Milhares de pessoas trabalharam nesta obra. Ao final de 7 anos, Salomão inaugurou o Templo com tefilot (preces), cânticos de louvor a D-us e Korbanot (sacrifícios e oferendas). Por ocasião da inauguração do Templo, D-us prometeu a Shelomô, no livro de Crônicas (Divrê HaIamim) 7:15:

"A partir de agora, Meus olhos estarão abertos e Minhas orelhas estarão atentas para as orações deste lugar".

OUTROS FEITOS DE SALOMÃO


Além da construção do Templo Sagrado, Salomão ergueu outras grandes construções dentro e fora de Jerusalém, especialmente ao longo das principais vias de acesso à capital. Salomão edificou cidades e, nelas, palácios, fortalezas e depósitos. O Rei expandiu o comércio com os países vizinhos trazendo dividendos e muita riqueza ao seu reinado.

Do ponto de vista organizacional, dividiu a Terra de Israel em 12 regiões, administradas por governadores (os Netzivim), que tinham a função de cuidar da paz e cobrar impostos, pagos em dinheiro, produtos agrícolas ou trabalho. Esta arrecadação era destinada a sustentar o luxo de Salomão, sua família e as pessoas próximas a ele.

Salomão estabeleceu alianças com os reis, e permitiu-se casar com as filhas destes governantes. As mulheres estrangeiras, que não pactuavam o monoteísmo do povo judeu, trouxeram altares e idolatria ao Reino de Israel.

Segundo uma opinião, no final da vida, Salomão acabou pecando com a idolatria de suas esposas. Segundo outra opinião, o pecado de Salomão foi ter permitido a entrada da idolatria em Israel, o que foi considerado como se tivesse feito idolatria.


AS MITZVOT DE UM REI DE ISRAEL


A Torá estabeleceu em Devarim 17:16, três mitzvot proibitivas (Lo Taassê), destinadas aos reis de Israel: 

  • A aquisição de muitos cavalos.
  • O casamento com muitas mulheres.
  • A posse de muito ouro e prata.
Salomão casou com muitas mulheres, pois acreditava que jamais se desviaria do caminho de D-us; ele acumulou muitos cavalos, confiando que sua sabedoria não o deixaria voltar ao Egito (este é o motivo pelo qual o Rei estava proibido de ter muitos cavalos); e, por fim, ele possuiu muitas riquezas, pois ele achou que não sucumbiria ante os obstáculos da riqueza.

Salomão falhou nestas três mitzvot!

MAASSÊ AVOT SIMAN LABANIM - OS ATOS DE NOSSOS ANTEPASSADOS SERVEM DE LIÇÃO AOS SEUS FILHOS (DESCENDENTES)


O grande comentarista Rabi Moshe Ben Maimon, o Rambam (1135 -1204), escreve no Sefer Hamitzvot (livro dos Mandamentos), que, o que aconteceu com Salomão serve de aprendizado para todo e qualquer judeu, em todas as gerações: 

As Mitzvot (mandamentos) de D-us não devem ser interpretadas de maneira que levem o indivíduo a descumpri-las por achar que não se aplicam a ele. Desta maneira, devemos redobrar a atenção no cumprimento das Mitzvot.

FINAL DO REINADO DE SALOMÃO


Salomão morreu e foi enterrado ao lado de seu pai, na Cidade de David. Seu filho, Roboão (Rechavam) assumiu o trono de Israel. Muitas tribos se recusaram a aceitá-lo como Rei, resultando na divisão do reinado em dois: o Reino de Israel, ao sul e o Reino de Judá, ao norte.


ALGUMAS CURIOSIDADES SOBRE SALOMÃO

O nome Salomão, em Hebraico Shelomô, vem da palavra Shalom, que significa paz. Salomão recebeu este nome devido ao período de paz que imperava em Israel. Ele também fez Jerusalém (Ierushalaim), que também contém a palavra Shalom, se distinguir pela sabedoria, riqueza e esplendor.

Salomão teve 700 esposas e 300 concubinas. O Tanach cita apenas três filhos de Salomão: seu filho e sucessor, Roboão e duas filhas, casadas com governadores provinciais.

Salomão compôs três dos livros do Tanach: Provérbios, Eclesiastes e Cânticos dos Cânticos.

Segundo nossos sábios, Salomão tinha outros seis nomes: Iedidiá, Kohelet, Itiel, Agur, Ben Iake e Lemuel.


Espero que tenham gostado.
Até a próxima!

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

OPERAÇÃO EZRÁ E NECHEMIÁ - OPERAÇÃO ALI BABÁ

Logo depois da criação do Estado de Israel, em 1948, cerca de 120 mil judeus foram retirados de avião do Iraque e levados ao novo país, numa operação que foi denominada Ezrá (Esdras) e Nechemiá (Nehemias).


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                         Selo comemorativo dos 20 anos da saída dos judeus do Iraque



NA TORÁ (A BÍBLIA JUDAICA)

A primeira citação sobre a região, aparece depois da criação do homem, quando a Torá fala de um rio que saía do Jardim do Éden e se dividia em quatro rios, "o nome do terceiro rio é Chidekel, que escoa para o leste da Assíria (norte da Mesopotâmia, atual Iraque)", no mesmo versículo, a Torá continua "O quarto rio é Eufrates" (Bereshit 2:14). Sobre a origem dos nomes dos rios Chidekel e Eufrates, o exegeta Rabi Shlomo Itzchak, o Rashi (1040 -1105) explica que Chidekel, vem da palavra Chad (correntes) e (Kal) cristalinas, porque suas águas são correntes e cristalinas e Eufrates, em hebraico Perat, "porque suas águas são férteis (Parin) e multiplicam-se, deixando as pessoas saudáveis".

Mais adiante, a Torá narra sobre os primórdios da história do povo judeu, quando D-us determina a Avraham (Abrãao), conhecido depois como o primeiro judeu, para que deixe sua terra para habitar a Terra de Kenaan (Israel). Abraão era natural de Ur dos Caldeus e, naquela época morava em Charan (Harã), numa região denominada de Crescente Fértil.

As esposas dos patriarcas Isaac e Jacob também vieram de Harã.

(Para saber mais sobre o assunto, acesse o link  para o post A Periodização da História Judaica).



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Em 720 AEC, os Assírios comandados por Sancheriv (Senaqueribe) conquistaram e exilaram os habitantes do Reino de Israel, restando na Terra de Israel, o Reino de Iehudá. O Reino de Iehudá permaneceu até o ano de 586 AEC, quando foi conquistado pelos Babilônios sob comando do Rei Nevuchadnetzar (Nabucodonosor). Os judeus tiveram seu Templo destruído e foram exilados para a Babilônia.

OS JUDEUS NO IRAQUE

As primeiras informações históricas sobre a presença judaica na Babilônia datam de 597 AEC, quando uma leva de 10 mil judeus foram retirados do Reino de Judá, por Nabucodonosor, de forma que, quando os judeus foram levados cativos para a Babilônia, já encontraram alguma estrutura comunitária. Certa liberdade religiosa, a semelhança com o idioma hebraico e boas oportunidades econômicas facilitaram a adaptação dos judeus à nova realidade. 

Por que a Babilônia e não em outra terra? 

O Talmud relata que o grande Rabi Iochanan ben Zakai levantou a questão e ele mesmo respondeu: "Porque Abraão era procedente de lá!"

Mesmo após a conquista dos Persas e a permissão para retornar a Israel, as comunidades babilônicas se mantiveram e durante o domínio romano na Terra Santa, o Judaísmo Babilônico ganhou muita importância, passando a ser, inclusive, o centro do Judaísmo mundial. 

A Babilônia teve algumas importantes academias de estudo e grandes nomes do Judaísmo. O Talmud Bavli (da Babilônia) é de lá! Com o passar dos séculos e com a ampliação e abertura de novos centros judaicos na Europa, Judaísmo Babilônico entrou em declínio, diminuindo o peso e a influência que tinha em relação às comunidades judaicas no resto do mundo. 

Indubitavelmente, a comunidade judaica é uma das mais antigas comunidades judaicas, com um histórico de grandes e de significativas contribuições ao Judaísmo mundial.


EZRÁ (ESDRAS) E NECHEMIÁ (NEHEMIAS)

A operação de retirada dos judeus do Iraque levou o nome de duas grandes personalidades do Judaísmo Babilônico, Esdras e Nehemias, que, na antiguidade, lideraram o movimento de retorno a Israel (Shivat Tzion). Nehemias liderou a 1ª aliá (ida a Israel), que aconteceu logo após a conquista da Babilônia por Ciro, setenta anos depois da destruição do 1º Templo. Esdras, liderou a assim chamada 2ª aliá, que deu continuidade ao trabalho de seu antecessor.

A OPERAÇÃO EZRÁ E NECHEMIÁ

Depois da 2ª Guerra Mundial (1938 - 1945) e como reflexo do agravamento do conflito entre palestinos e israelenses, as relações entre os judeus iraquianos e a sociedade maior se mostraram bastante deterioradas com aumento das ondas de violência e da imposição de restrições aos judeus.

As medidas contra os judeus começaram a ganhar corpo quando, em 1947, o governo iraquiano declarou o Sionismo uma ofensa capital e proibiu a imigração para Israel. Todo aquele que tentasse deixar o país era condenado à prisão. Centenas de judeus foram presos.


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Em 1950, o Parlamento israelense (Knesset) aprovou a Lei do Retorno, quando, na prática conferia a todo judeu o direito natural de morar em Israel, o que levou os parlamentares à negociação com as autoridades iraquianas. O Iraque concordou com a saída dos judeus, sob as seguintes condições:
  • Desde que liquidassem seus negócios e propriedades no Iraque.
  • Cada pessoa só podia levar, no máximo, US$ 140 e carregar bagagens de até 66 kg.
  • Não podiam retirar as joias do país. 
O governo iraquiano foi surpreendido com o número de adesões dos judeus à campanha de saída do Iraque. Mesmo com tantas imposições, os judeus resolveram acatar o chamado do movimento sionista e optaram por deixar o país para começar uma vida nova na sua terra ancestral. Na época, a comunidade judaica contava com 135 mil pessoas.

A retirada dos imigrantes do Iraque levou meses e um trabalho árduo por parte dos israelenses. A companhia aérea El-Al empenhou-se para que a operação fosse bem sucedida.

Em 1952, a operação foi concluída. A grande maioria dos judeus da comunidade judaica deixou o Iraque interrompendo uma relação milenar de presença judaica na região.



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A operação Ezrá e Nechemiá incentivou e inspirou a realização de outras operações de resgate de judeus pelo mundo, como por exemplo, a Operação Tapete Mágico, que retirou judeus do Iêmen e Operações Moisés (1984 - 1985) e Salomão (1988 - 1991), que libertou os judeus da Etiópia.



Até a próxima!

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domingo, 5 de agosto de 2018

DANIEL

O LIVRO DE DANIEL NO TANACH

O Tanach [Torá (Bíblia Judaica), Neviím (Profetas) e Ketuvim (Escritos)] é composto de 24 livros, assim divididos:

  • Torá - 5 livros - Bereshit (Gênesis), Shemot (Êxodo), Vaikrá (Levítico), Bamidbar (Números) e Devarim (Deuteronômio).
  • Neviím -  8 livros - Iehoshua  (Josué), Shofetim (Juízes), Shmuel (Samuel), Melachim (Reis), Ieshaiahu (Isaías), Irmiahu (Jeremias), Iechezkel (Ezequiel) e Trê-Assar (Doze profetas).
  • Ketuvim - 11 livros - Tehilim (Salmos), Mishlê (Provérbios), Iov (Jó), Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos), Kohelet (Eclesiastes), Ester, Daniel, Ezrá/Nechemiá (Esdras/Neemias) e Divrê Haiamim (Crônicas).
O livro de Daniel é o sétimo livro dos Escritos sdaaa  e foi assim denominado, em referência à personalidade central da obra, o profeta Daniel. Com doze capítulos, parte em aramaico (idioma babilônico) e parte em hebraico, narra as experiências de Daniel e de seus três amigos, Chananiá (Hananias), Mishael (Misael) e Azariá (Azarias), que foram levados à Babilônia,  ainda muito jovens, pelo Rei Nabucodonosor (604 AEC - 562 AEC), em 596 AEC, onze anos da destruição do 1º Templo Sagrado, ainda na época do Rei de Judá, Iechoiakin (Joaquim).

(Para saber mais do período, acesse o link do post Os Períodos da História Judaica).


O PROFETA DANIEL


Conhecido também por Daniel Ish Chamudot (homem valoroso) pelas virtudes e pureza de caráter, vivia no palácio de Nabucodonosor, às voltas da mesa do Rei. Ele e seus três amigos, com o intuito de respeitar as leis dietéticas de Kashrut, não desfrutaram das refeições reais. Eles alimentavam-se de sementes e água. Não obstante, mantiveram-se saudáveis e de boa aparência.

Além da sabedoria e da inteligência, que superava a dos melhores magos e astrólogos do Império, Daniel tinha o dom de interpretar sonhos, habilidade  que rendeu-lhe muita grandeza e favorecimento na corte real.

Nabucodonosor tornou-se um rei poderoso de um Império grandioso. Muitos países estavam subjugados ao seu domínio, inclusive o Reino de Judá. Apesar do poderio, uma questão o incomodava: "O que iria acontecer no final de seu poderoso Império?".

Nabucodonosor obteve a resposta por meio de um sonho que
o deixou ansioso:
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Nele, o rei via uma imagem grande e de aspecto impressionante, que tinha a cabeça de ouro, os braços e o tórax de prata, o ventre e os quadris de cobre, as pernas de ferro e os pés, feitos de ferro e de barro. Uma mão invisível lançou uma pequena pedra, que veio em direção ídolo, destruindo-o completamente. Enquanto seus pedaços se espalhavam em todas as direções, a pedra se transformava numa grande montanha.

Místico, Daniel interpretou o sonho:

A cabeça de ouro representava o domínio do Império Babilônico. Depois deste, se levantará um reino inferior, como a prata (Império Persa). Um terceiro Império será como o cobre (Império Grego) e, por fim, um quarto Império que será forte como o ferro (Império Romano). A mescla de ferro e barro simbolizavam que o Império (Romano) se dividirá em dois. A pedra lançada pela mão invisível significava a "mão" de D-us, que estabelecerá no final dos dias, um reinado (Israel) que prevalecerá sobre todos os outros Impérios à sua volta.


Nabucodonosor obteve resposta à sua inquietação!

Abrindo um parêntese, o sonho de Nabucodonosor já se cumpriu inteiramente, faltando somente a última parte.



IMPÉRIO PERSA


Nabucodonosor foi sucedido pelo filho, Evil Merodach e, este, por Belshatzar (Baltazar).

Nos dias de Baltazar, aconteceu que Daniel foi chamado para interpretar uma visão estranha, que apareceu para o rei, na parede do salão de festas, bem no momento em que comemorava num banquete com seus nobres. Baltazar usava e ostentava os utensílios sagrados do Templo Sagrado destruído em 586 AEC.

Escrita em letras hebraicas, apareceu uma inscrição na sua parede, na língua aramaica, com quatro palavras (Menê - Menê -Takel - Ufarsim). Daniel interpretou quer isso predizia o fim, não só do reinado de Baltazar, como de todo Império Babilônico. Exatamente como no sonho de Nabucodonosor, naquela mesma noite, a a interpretação de Daniel se concretizou. A Babilônia caiu diante do Império Persa.



                          Tela de Rembrandt: o Rei Baltazar e a escrita misteriosa na parede


Daniel foi, mais uma vez, recompensado com roupas reais e jóias.

DANIEL NO FOSSO DOS LEÕES


Dariavesh (Dario), rei do Império Persa (e Meda), reconheceu a grandeza de Daniel e o nomeou chefe de seus ministros. Esse fato despertou a inveja dos inimigos de Daniel, que procuraram alguma "brecha" para afastá-lo do rei. O que eles fizeram?

Usando a justificativa de fortalecer o reinado de Dario, os ministros propuseram ao rei que decretasse que todo aquele que rezasse nos próximo 30 dias para o seu D-us, receberia como punição, a pena capital. No caso, tal indivíduo deveria ser jogado no fosso dos leões. O Rei aprovou a ideia.

Seguindo o costume judaico, todas as tefilot eram realizadas em direção ao Templo Sagrado, em Jerusalém. Daniel não só seguia este costume como, na casa dele, havia uma porta voltada para Jerusalém. Daniel não se intimidou, continuou mantendo o costume de rezar as três tefilot diárias.

Os ministros cobraram de Dario uma atitude contra Daniel e o sábio foi jogado no fosso dos leões. O livro de Daniel conta que ali houve um milagre: os leões não atacaram Daniel. Depois disso, o Rei decretou liberdade religiosa a todas as nações sob jugo de seu reinado.

Dario ficou pouco tempo no poder. Logo, foi substituído por Koresh (Ciro), o famoso Imperador da Pérsia.


O NOME DANIEL 


O nome judaico denota a essência da pessoa, reflete seus traços particulares de caráter e os dons concedidos por D-us. Assim é o nome Daniel, composto de duas palavras hebraicas de grande força: Din, severidade e restrição e E-l, o atributo divino relacionado à bondade.

A vida de Daniel atravessou por muitos Impérios. Ele foi afastado ainda muito jovem do convívio familiar e levado a uma terra distante com um objetivo claro de unir dois extremos, severidade (Din) e bondade (E-l).

Mesmo circulando nos palácios reais e aclamado por sua sabedoria, Daniel não pegou para si os créditos do sucesso, mas atribuiu seus talentos à força superior de D-us e, com uma fé inquebrantável, mostrou resiliência nos momentos mais atribulados de sua vida. Daniel foi exemplo e luz para o alquebrado espírito dos judeus na escuridão do exílio.


Até a próxima!

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