terça-feira, 4 de dezembro de 2018

O DOMÍNIO GREGO E A HISTÓRIA DE CHANUKÁ

A terra de Israel sempre foi alvo de disputas e cobiça por parte de grandes Impérios e de seus países vizinhos. 

Em Chanuká, festa muito comemorada por todos os judeus com o acendimento, por oito dias consecutivos, da chanukiá (menorá com oito braços), a história não foi diferente.


VISITANDO O PASSADO


Depois da morte do Rei Salomão, em 928 AEC, Israel foi dividida em dois reinos. Ao norte, o Reino de Israel, com dez tribos e, ao sul, o Reino de Judá, com duas tribos (Judá e Benjamim). Enquanto o Reino de Norte era governado por reis que praticavam a idolatria, os reis do Reino do Sul, descendentes da Casa de David, mantiveram-se, salvo em alguns períodos, observantes das leis da Torá (a Bíblia judaica).

O Reino de Israel permaneceu por mais 200 anos, quando, em 722 AEC, foi invadido, conquistado e exilado pelos Assírios, a potência da época. O Reino de Israel desapareceu. Ainda hoje, os vestígios dessas tribos são procurados por historiadores, pesquisadores e rabinos.

Já o Reino de Judá ou Judeia permaneceu por mais 344 anos depois da extinção do Reino de Israel. Foi durante esse período que uma nova potência ascendeu, a Babilônia, e pôs na rota de suas conquistas, a remanescente Judeia, que caiu ante o poderoso inimigo. O Primeiro Templo foi destruído e o povo exilado para a Babilônia. Setenta anos depois, foi-lhes permitido retornar para a sua terra, com a autorização dos atuais governantes da Judeia e nova potência da época, os persas. O Segundo Templo foi construído nesse período.


ASCENSÃO DO HELENISMO

Em 338 AEC, uma nova liderança surgiu - a de Alexandre III, da Macedônia (Reino ao norte da Grécia). Conhecido historicamente como Alexandre, o Grande ou Alexandre Magno. Felipe II, pai de Alexandre, uniu forças com os gregos, formando um poderoso exército na intenção de conquistar o Império Persa. Morreu em batalha antes de concretizar o sonho.

Habilidoso nas artes da guerra, Alexandre, que sucedeu o pai, dominou toda a Grécia, à exceção de Esparta e partiu rumo ao ambicioso sonho de conquistas e, com isso, almejou erguer um grande Império. 

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Alexandre conquistou a Judeia em 332 AEC. Ele também derrotou e extinguiu o Império Persa em 330 AEC. Não perdeu uma só guerra. O Império Grego ficou gigante e compreendia desde a Grécia até o Egito passando pelo noroeste da Índia. Junto com as conquistas territoriais, Alexandre também difundiu nos países dominados a cultura helenista, um misto da cultura grega com a cultura do Oriente Médio. O Helenismo era, na essência, uma cultura pagã e laica. 




Mosaico de Alexandre Magno e seu cavalo, exposto no 
Museu Arqueológico Nacional, em Nápoles


Com a morte de Alexandre Magno, o Império Grego dividiu-se entre seus quatro generais:

  • Ptolomeu: Egito
  • Selêuko: Síria e Persa
  • Cassandro: Grécia
  • Lisímaco: Ásia Menor

Para o assunto deste post focaremos em Ptolomeu, que fundou a dinastia Ptolomaica e Selêuko, que fundou a dinastia dos Selêucidas. Cito esses dois nomes, porque como a Judeia era limítrofe entre os dois Impérios, ficou, primeiramente, sob o domínio Ptolomaico (de 312 AEC a 198 AEC), passando depois para o domínio (sírio) dos Selêucidas, a partir de 198 AEC. 

Com a morte de Selêuko IV, seu irmão, Antíoco IV Epifanes (em grego, manifestação divina),  o sucedeu. Há algumas opiniões que chamam o monarca de Epimanes ("o louco"). Antíoco superou seus antecessores no rigor e crueldade.

Antíoco queria unificar as religiões e impor a cultura helenista aos povos dominados. Na Judeia houve forte resistência. Helenismo e Judaísmo não combinavam. 


O DOMÍNIO GRECO-SÍRIO SOB A JUDEIA



O contato dos judeus com a cultura helenista trazida pelo Império Greco-Sírio levou parte dos judeus a se "helenizarem", enquanto que grande parte da população judaica da Judeia manteve-se fiel aos princípios e à maneira judaica de ser.
Pelo contrário, fortaleceram dentro de si o pacto sagrado com a Torá.

Notadamente houve dois conflitos: um, externo, contra a opressão e a influência de uma cultura "estranha", o Helenismo e, outro, interno, entre os judeus já assimilados à cultura helenista e os que se mantiveram nos caminhos da Torá. 

Os judeus assimilados aliaram-se ao Império Greco-Sírio no combate do Judaísmo tradicional. Por outro lado, Antíoco considerou o sentimento judaico de autopreservação e, consequentemente, a rejeição à cultura helenista, como um ato de rebeldia e, por conta disso, tomou medidas drásticas para conter a "rebelião".

Por volta de 175 AEC, o rei outorgou importantes e restritivos decretos contra a manutenção da religião judaica, proibindo sob pena de de morte, o estudo da Torá, o cumprimento do Shabat, o  Brit Milá (circuncisão) e a consagração do novo mês (Rosh Chôdesh). Milhares de judeus foram mortos. O Templo Sagrado foi profanado, transformando-se num local de práticas pagãs. Os azeites puros usados no acendimento diário da Menorá e que eram conservados em "jarrinhos" com o lacre do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) foram maculados. 

O povo judeu sentindo o grande perigo que o assombrava não viu outra saída, a não ser declarar guerra contra o inimigo.


OS MACABEUS - HAMAKABIM


Um pequeno grupo, encabeçado pela família Chashmonaí (Hashmoneus), de Matatias e seus cinco filhos , todos Cohanim - Sacerdotes, empreenderam a missão de guerrear contra a dominação greco-síria de sobre a Terra de Israel. Mesmo tendo sido envolvido por grande risco de vida, os corajosos judeus, determinados pela fé em D-us, lutaram contra o experiente exército selêucida e milagrosamente os venceram. 

Conforme está escrito na tefilá recitada em Chanuká:

"... entregastes os fortes nas mãos dos fracos, os numerosos às minorias, os impuros aos puros, os maus aos justos, os mal-intencionados aos que cumprem a Tua Torá...".

O grupo ficou conhecido como MaKaBIm pelas iniciais do versículo: Mi Kamocha Baelim Hashem" - "Quem é como Hashem entre os deuses?" (Shemot 15:11).

Na data judaica de 25 de Kislev, os Macabeus restabeleceram a posse do Templo Sagrado, limpando-o das impurezas deixadas pelos invasores. Quiseram acender a Menorá. Encontraram um único jarro, intacto, apto para ser usado no acendimento da Menorá, contendo azeite suficiente para um dia. Deu-se outro milagre! O azeite durou por oito dias, tempo suficiente para a fabricação de novo azeite.



CHANUKÁ


A festa de Chanuká foi incorporada ao calendário judaico, levou esse nome por pelo menos dois motivos:

1. Chanuká significa inauguração. Este nome está relacionado à dedicação do Templo Sagrado, conforme já foi falado acima.
2. Desmembrando a palavra Chanuká obtemos Chanu (descansaram) em (letras Kaf e Hê), que somam 25. Os Macabeus descansaram em 25 (de Kislev). 




PALAVRAS FINAIS


A história de Chanuká está cheia de idas e vindas. Milagres e sobrevivência. Uma das grandes lições que podemos retirar desta linda festa é que "Ên davar haomed bifnê haratzon" - "Nada persiste diante da vontade~. Com muita determinação podemos vencer e transpor todas as dificuldades e barreiras que nos impedem de alcançar nossos objetivos de vida.


FONTES:

Morashá Syllabus
Chabad.org
Eliahu KITOV, Sêfer HaTodaá, Israel.








sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A INDIFERENÇA: A CONFERÊNCIA DE ÉVIAN

Pogroms, perseguições, queima de livros, ataques ao patrimônio particular e a entidades comunitárias, privação dos direitos e cidadania, desemprego... a situação dos judeus na Alemanha e países fronteiriços era muito delicada. As políticas antijudaicas impostas por Adolf Hitler caminhavam a pleno vapor. 

Estamos em 1938. Nuvens cinzentas assombram a população judaica. 

Diante da situação caótica vivida pelos judeus na Alemanha nazista e na intenção de resolver a situação dos refugiados judeus daquela área, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) tomou a dianteira e convocou uma reunião com representantes de diversos países do mundo. Roosevelt objetivava discutir a questão judaica e, como resultado, esperava que os países absorvessem a massa crescente de refugiados judeus da zona de guerra. 

Ao saber da conferência, Hitler exclamou:


"Eu só posso esperar que o outro mundo, que tem profunda simpatia por esses criminosos (em referência aos judeus), tenha pelo menos a generosidade de converter essa simpatia em ajuda prática. Nós, da nossa parte, estamos prontos para botar esses criminosos para fora daqui, e à disposição desses países, por mim, até em navios de luxo"(Landau, 2006, The Nazi Holocaust).


A conferência aconteceu entre os dias 6 e 15 de julho, na bucólica Évian-les-Bains, na França, no luxuoso Hotel Royal (foto abaixo) e contou com a participação de  trinta e dois países, dentre eles, o Brasil. A Argentina participou como país observador, a Itália, de Benedito Mussolini (1883 - 1945), recusou-se a participar, a União Soviética não enviou representação. Países da Europa Oriental, de maior população judaica, restringiram-se a mandar observadores. 


The Hotel Royal, site of the Evian Conference on Jewish refugees from Nazi Germany. [LCID: 62121]

Vinte e quatro organizações de trabalho voluntário tiveram autorização para participar da conferência como observadoras. Qualquer proposta vinda das mesmas teria de ser apresentada de forma oral ou escrita. Entidades judaicas também puderam participar. A conferência ganhou destaque na mídia internacional com a presença de centenas de jornalistas.

Centenas de milhares de judeus já haviam sido retirados da Alemanha e Áustria. Évian prometia. Mais que tudo, os judeus, que vivam na zona de risco, estavam cheios de esperança. 

Quem sabe, finalmente, resolveriam suas atribulações e escapariam das garras opressoras do Nazismo?

Realmente houve solidariedade nos discursos proferidos pelos representantes das nações. Muitos concordaram que a situação dos refugiados judeus precisava ser resolvida,  porém, a prática não acompanhou a teoria.                                                                                                      
                                                                                                                                     
Receber os refugiados em seus países? Essa era outra história! 

A Austrália argumentou não ter interesse em importar um problema racial real, já que não tinha nenhum. A Argentina alegou ser um país agrário e, por isso, não tinha espaço para imigrantes nos setores urbano e industrial.  Quatro dias depois, proibiu receber pessoas expulsas de seu país por ideias políticas ou de origem racial. Estados Unidos, Grã-Bretanha e França mostraram-se contrários à política de imigração irrestrita. 

Porém seria injusto não citar o exemplo da República Dominicana, que se dispôs a receber cerca de 100.000 refugiados judeus. Exemplo seguido mais tarde pela Costa Rica.

                                            
United States delegate Myron Taylor delivers a speech at the Evian Conference on Jewish refugees from Nazi Germany. [LCID: 87868]
                    Myron Taylor, amigo pessoal do presidente Roosevelt, representou o governo americano




GRANDE FIASCO

O resultado da conferência ou a falta de, não poderia ter sido mais danoso aos judeus, ao mesmo tempo que, de uma certa forma, "validou" as políticas antissemitas perpetradas contra os judeus. 

Diante disso, Chaim Weizman, ativista sionista, que se tornaria o  primeiro presidente do Estado de Israel, disse: "O mundo parecia dividido em dois - os lugares onde os judeus não podiam viver e os lugares onde não podiam entrar".

Depois de Évian, Hitler praticamente ignorou os apelos internacionais e, atropelando as mínimas atitudes de humanidade, pôs em prática seu plano de Solução Final para o problema judaico, que culminou no extermínio de seis milhões de judeus.

E SE ...?


Em julho de 1979, o então vice-presidente dos Estados Unidos, Walter Mondale descreveu a esperança representada pela Conferência de Évian:

          "O que estava em discussão em Évian eram vidas humanas - e a decência e o 
          respeito próprio do mundo civilizado. Se cada nação tivesse concordado, em Évian,
          naquele dia em abrigar 17 mil judeus de uma vez, todos os judeus do Reich poderiam
          ter sido salvos. Como um observador americano descreveu: 'É de partir o coração
          pensar em todos os ... seres humanos desesperados ... esperando aflitos o que iria
          acontecer em Évian. Mas a questão que eles destacam é simplesmente humanitária
          ... é um teste civilizatório.'"

Por fim, concluo este post com o célebre pensamento do grande Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto e prêmio Nobel da Paz de 1986:

         "O oposto do amor não é nenhum ódio, é a indiferença.
           O oposto de arte não é a feiura, é a indiferença.
           O oposto de fé não é nenhuma heresia, é a indiferença.
           E o oposto da vida não é a morte, é a indiferença."

Fica a reflexão!

Até a próxima!
Qualquer dúvida, entre em contato comigo, pelo email
miriam.i.benzecry@gmail.com

FONTES:

https://www.lasegundaguerra.com/viewtopic.php?t=12305
https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/film/evian-conference-fails-to-aid-refugees
GILBERT, Martin. O Holocausto. São Paulo: Editora Hucitec, 2010.



quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O ANTISSEMITISMO NA ALEMANHA NO PÓS-PRIMEIRA GUERRA E OS JUDEUS

A data de 11 de novembro de 2018 assinalou o aniversário do primeiro centenário do final da 1ª Guerra Mundial. Nenhuma guerra é justa, porém, e especialmente esta guerra abriu o caminho, gradativamente, os eventos que culminaram numa das maiores catástrofes sofridas pelo povo judeu: o Holocausto. 

Vamos aos fatos!




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                                   Soldados judeus comemorando a Festa de Chanuká


A derrota alemã marcada pela assinatura do Armistício de Compiègne, em 1918, na França, determinou o fim das hostilidades entre o país e as tropas aliadas e, no ano seguinte, a assinatura do Tratado de Versalhes, também na França, que, ratificando o acordo anterior, deixou a Alemanha num caos econômico e social.

Basicamente, o Tratado de Versalhes impunha à Alemanha as seguintes condições:

1. A redução drástica de seu exército.
2. A devolução de parte de seu território a países fronteiriços.
3. O reconhecimento da independência da Áustria.
4. O pagamento de pesadas multas aos países vencedores da guerra.

As condições desfavoráveis deste Tratado à Alemanha, foi classificado pelos alemães de diktat, uma imposição, e fizeram brotar na população um sentimento de injustiça e humilhação.

Alheios à contribuição dos judeus nos fronts de guerra e ao engajamento dos mesmos na reconstrução do país, os alemães acusaram os judeus pelos males da guerra e do pós-guerra. Circulava na sociedade a "lenda da punhalada pelas costas", um mito criado no final da 1ª Guerra para "justificar" a derrota e o fiasco alemão. Segundo versava a lenda, o exército alemão permaneceu invicto no campo de batalha, até ser "apunhalado pelas costas por oposicionistas apátridas" - os judeus.

A propaganda maldosa surtiu efeito e sentimentos antissemitas se revelaram na prática. 

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Charge antissemita do mito da "punhalada pelas costas"

A política foi profundamente afetada pelo sentimento antijudaico, que imperava na época, o que fomentou o aparecimento de partidos radicais antissemitas, entre eles, o Partido Socialista dos Trabalhadores Alemães, o NSDAP, que, posteriormente, foi chamado de Názi, de Nazional, em referência às duas primeiras sílabas da primeira palavra da sigla.

Em linhas gerais, o Partido Názi (ista) preconizava o resgate das fronteiras perdidas na guerra e o ideal da Grande Alemanha. Ele excluía, terminantemente, os judeus como cidadãos do país. Já em 1920, uma das plataformas do Partido pregava que "ninguém que não seja membro da nação pode ser cidadão do Estado" - esse "ninguém" incluía sobretudo os judeus. 

O referido Partido, que nos primórdios era "nanico", registrou um rápido crescimento, com a adesão de novos correligionários. O austríaco Adolf Hitler, sétimo na hierarquia, começou a se destacar com seus inflamados discursos de pureza racial e de salvação da Alemanha. Hitler conclamou o povo a se livrar da ameaça judaica e propôs uma solução final para o que ele chamava de "problema judaico", na Alemanha: "Antissemitas do mundo, uni-vos! Povos da Europa, libertem-se!". Hitler propôs a remoção dos judeus da Alemanha.

Em 1921, Hitler formou um exército civil dentro do Partido, os SA (Sturmabteilung), com o objetivo claro de perseguir e reprimir todos aqueles que fossem contrários à ideologia do Partido. Os SA ficaram conhecidos como os "camisa marrom", em alusão à cor marrom do uniforme. Eles agiam como uma espécie de tropa de choque do Partido Nazista.

Nessa época, a suástica começou a ser usada como símbolo do Partido.

Os ataque antissemitas não cessaram!

Em 1922, o Ministro de Relações Exteriores alemão, Walther Rathenau, foi assassinado. Ele, que era judeu e militante do Partido Democrático, havia negociado um acordo com a União Soviética, era odiado pela extrema-direita. O assassinato de Rathenau foi muito bem recebido pelo partido de Hitler. Nas ruas, vozes conclamavam a derrubada do político "o sujo desgraçado lixo judeu". E foi isso que aconteceu.

Em 12 de novembro de 1923, numa tentativa frustrada de golpe Estado de Estado, liderada por Adolf Hitler. O líder foi preso, julgado e condenado. Em 1925, publicou o livro Mein Kampf - Minha Luta, onde, claramente , atacava os judeus, acusando-os, junto aos marxistas, de serem uma influência perigosa ao povo alemão. Hitler defendia a qualidade e a pureza do sangue ariano.

A juventude Hitlerista foi criada em 1926. O antissemitismo na Alemanha não foi feito por um único homem, mas, com o apoio ativo de seu povo, como vemos nos filmes históricos da época.

Já em 1930, o partido Nazista pulou de 12 para 107 cadeiras no Parlamento. Esse crescimento só validou as políticas anti-judaicas e os ataques antissemitas.

Nas eleições de 1932, o Partido passou a ter 230 cadeiras.


ATÉ O HOLOCAUSTO


Quando Adolf Hitler foi nomeado chanceler alemão, em 1933, sedimentando práticas antissemitas, a vida dos judeus virou um verdadeiro "inferno". O campo de concentração de Dachau foi construído e a Gestapo, a polícia secreta, foi instituída, sendo responsável pela perseguição, tortura e morte de todos os oponentes da ideologia nazista.

Os judeus tiveram muitos de seus direitos básicos cerceados. Em 1934, Hitler assumiu definitivamente o poder e se autoproclama Fuhrer e Reichskanzler (chefe e chanceler do Reich). Em 1935 outorgou as Leis de Nuremberg e, com elas, a definição de quem é considerado judeu - aquele que tivesse, na sua ascendência, três avós judeus. Himmler, o arquiteto da Solução Final, assumiu a chefia da polícia política alemã. Para mortes em grande escala, novos campos de concentração foram construídos.

Em 1938, início da 2ª Guerra Mundial, Hitler pôs em prática a política de extermínio dos judeus.

Até aqui!

CHEGANDO NOS "FINALMENTES"


Outro dia, li um post sobre a participação dos judeus na 1ª Guerra, que me levou a uma profunda reflexão. A publicação enfatizava que milhares de soldados judeus alemães, com certeza, lutaram (e mataram) soldados judeus franceses, e vice-versa. Estavam em lados opostos, eram patriotas defendendo seus países.  Como bem escreveu Martin Gilbert, na obra Holocausto: "... judeus serviram em todos os exércitos: e em trincheiras opostas e de ambos os lados do arame farpado". Outros tantos foram condecorados por atos de bravura.

Apenas 20 anos depois, já na 2ª Guerra, os judeus encontraram-se do mesmo lado, nos campos de concentração. 

Deixo as conclusões para vocês!

Espero que tenham gostado.
Até a próxima!!!

Qualquer dúvida ou comentário entre em contato comigo
miriam.i.benzecry@gmail.com



FONTES:

https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/antisemitism-in-history-world-war-i
GILBERT, Martin. O Holocausto. São Paulo: Editora Hucitec, 2010.



terça-feira, 30 de outubro de 2018

A KRISTALLNACHT - A NOITE DOS VIDROS QUEBRADOS

Passados 80 anos do Holocausto, que foi, sem dúvida, uma das maiores tragédias sofridas pelo povo judeu, muitas perguntas e reflexões ainda são feitas sobre o fato. Questionamentos de todos os tipos. Não raro escuto que este ou aquele, descendentes até de família de rabinos abandonaram o Judaísmo tradicional por conta do que passaram no Holocausto. 

A verdade é que não nos cabe julgar!

Eu também tenho as minhas perguntas e não acredito que haja respostas satisfatórias para a maior parte delas. No meu modo de ver, a grande pergunta não deveria ser "onde estava D-us que permitiu tamanha bestialidade?", mas sim, "onde estava o homem?". 

Esta pergunta é universal e independe do grau de religiosidade ou, falta de, de cada um.
Cabe a cada um de nós conhecer e transmitir às próximas gerações.

Com este breve comentário, introduzo o post desta semana que falará sobre a Kristallnacht - a Noite dos Vidros Quebrados (ou Estilhaçados), que, na opinião de grandes historiadores, se constituiu em um divisor de águas e um "disparador" para a "oficialização" das perseguições antissemitas perpetradas pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. 

Lizkor velo lishkoach - Lembrar e não esquecer! 



CRONOLOGIA DO HOLOCAUSTO


A vida dos judeus na Europa nunca foi tão fácil. Desde que chegaram ao continente europeu, com o exílio romano, em 70 EC (da Era Comum), enfrentaram a rejeição e a expulsão; viveram apartados em guetos e bairros judaicos; foram alijados do mercado de trabalho e proibidos de exercer algumas profissões; sobreviveram aos cruzados e pogroms; conversão forçada, Inquisição e libelos de sangue. Comunidades inteiras foram varridas do mapa.

Partindo do século 20, assinalamos os fatos mais marcantes dessa trajetória.


ASCENSÃO DO NAZISMO  (1933 - 1938)


Em 30 de janeiro de 1933, Adolf Hitler foi nomeado chanceler alemão.

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Cena do documentário da cineasta alemã Leni Riefenstahl. 
Multidão aclamando Hitler no Congresso de Nuremberg. 

A partir de então, o destino dos judeus parecia estar selado. Hitler sempre foi bem claro sobre sua política de integridade e superioridade racial do povo alemão e, esta, não incluía, definitivamente, os judeus. Sua missão era expor e destruir a ameaça representada pelos judeus à qualidade da raça ariana.

Um outro agravante: Hitler culpava os judeus pela grande derrota e pela humilhação sofrida pela Alemanha, na Primeira Grande Guerra (1914 - 1918). Mesmo que os judeus tenham lutado lado a lado na guerra, foram condecorados por bravura e morreram como patriotas alemães.  Mesmo que depois da guerra, se esforçaram pela reconstrução do Estado alemão, eles foram estigmatizados e vítimas das crescentes ondas de antissemitismo que assolaram o país.

Hitler subiu ao poder com o discurso nacionalista que pregava a reconstrução e o restabelecimento da dignidade alemã. Pelos planos dele, isso envolvia a criação da Grande Alemanha, com a devolução das colônias alemãs perdidas pela Alemanha após a derrota na Guerra.

Aproveitando-se de uma manobra política, Hitler foi rapidamente ganhando espaço em busca da solidificação de sua ditadura. Expropriou todos os prédios do Partido Comunista. Fechou organizações pacifistas. Todos os que eram considerados inimigos do regime foram presos e torturados (muitas vezes até a morte). A propaganda antijudaica era muito forte em toda a Alemanha.

Já em 22 de Março, quase dois meses depois de assumir a chancelaria, deu-se a construção do primeiro campo de concentração (Dachau), administrado pelo violento pelotão da SA (inicialmente a força paramilitar nazista era chamada de "Sturmabteilung" ou "Divisões de Assalto"). Em 1º de Abril veio o boicote aos negócios e a lojas de judeus. Uma semana depois, foi a vez do decreto de afastamento dos judeus do funcionalismo público, do exército e das universidades. Enquanto isso, o terror imperava nas ruas.

Os judeus assistiam impotentes a tudo isso. Não podiam acreditar que, após séculos de permanência, de integração à sociedade alemã e de importantes contribuições às ciências, à medicina, às artes em geral e às indústrias alemãs, estivessem sendo escanteados de maneira vil e desleal. Dezenas de milhares de judeus deixaram a Alemanha. Com o escasseamento dos vistos de saída, logo o fluxo de emigração diminuiu, haja vista a dificuldade e a disposição dos países em receber os imigrantes judeus fugidos da guerra.

Nesse "meio tempo", Hitler escreveu o livro "Mein Kampf", volume I (1924) e volume II (1926), onde destilou o veneno antijudaico.

Em 2 de Agosto de 1934, com a morte de Alfred Hinderburg, Hitler se proclamou Führer  (líder) e Reichskanzler (chanceler) da Alemanha. Com isso, a máquina militar passou a servi-lo com lealdade e obediência. Vieram as leis raciais de Nuremberg (1935), quando os judeus deixaram de ser cidadãos alemães e foram proibidos de casar com arianos.

Em 17 de Junho de 1937, mais outro golpe: a nomeação como chefe da polícia alemã do sanguinário Heinrich Himmler, idealizador dos Campos de Concentração Nazistas, responsáveis pela eliminação de dois terços dos judeus da Europa.  A solução final de extermínio dos judeus estava ganhando forma.

Em 1938, a Alemanha anexou a Áustria e todos os decretos antissemitas passaram a vigorar também naquele país. Entendendo a urgência dos judeus de deixarem a Alemanha Nazista, o Presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, convocou uma conferência, que teve lugar em Évian-les-Bains (França), em 6 de Julho de 1938.  Trinta e dois países estavam representados na reunião. Infelizmente, e apesar dos grandes discursos, o encontro não foi bem sucedido, pois a maioria dos países demonstrou falta de vontade para receber os novos imigrantes judeus. Para Hitler, a atitude dos países validou sua política racial contra os judeus.

Em 28 de Outubro, dezessete mil judeus poloneses, que viviam na Alemanha, foram expulsos e  exilados na Polônia, com o seguinte agravante: foram rejeitados também na Polônia.

A KRISTALLNACHT - A NOITE DOS VIDROS QUEBRADOS 


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Durante os cinco primeiros anos no poder, os nazistas conseguiram transformar em miserável a vida dos judeus. Mas a ferocidade da perseguição pré-guerra atingiu seu ápice no episódio que ficou conhecido como Kristallnacht - A Noite dos Vidros Quebrados, em alemão, Novemberpogrom (o pogrom de novembro), um grande pogrom orquestrado nos bastidores pelo ministro da propaganda Nazista Joseph Goebbels, anos antes de acontecer na prática. 

Abrindo um parêntese, neste espaço chamaremos a Kristallnacht, de Noite dos Vidros Quebrados, porque sua tradução literal, a Noite dos Cristais é, ao meu ver, bem preconceituosa, pois remete à ideia de riqueza dos judeus. Já que os ricos, supostamente, têm cristais.

Voltando ao assunto! Nos bastidores, sim!  

O tratamento dispensado a seus familiares na Alemanha (lembrem que os judeus poloneses foram expulsos da Alemanha) motivou o jovem judeu Herschel Gryspan a entrar na embaixada alemã, em Paris, e assassinar a tiros um oficial Nazista do segundo escalão.

Os alemães precisaram somente de um pretexto para retaliar e desencadear uma ação antissemita nacional, sem precedentes. O assassinato em Paris serviu perfeitamente para esse propósito.

Organizado pelo Partido Nazista e bem orientado por Goebbels, o pogrom deveria parecer como uma revolta espontânea da população. Soldados da SA trocaram suas fardas por roupas civis e atacaram selvagemente seus objetivos: os judeus e suas propriedades.

SALDO NEGATIVO


Nas noites de 9 e 10 de Novembro de 1938, a Kristallnacht, deixou um prejuízo vultoso à população judaica, que teve 267 sinagogas e edifícios comunitários incendiados, propriedades particulares saqueadas e dezenas de milhares de estabelecimentos comerciais destruídos.  Nessas ações, cerca de 30 mil judeus foram presos e enviados aos campos de concentração, algumas mulheres também foram confinadas nas prisões locais. Houve dezenas de óbitos.


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A comunidade judaica recebeu uma pesada multa de 1 milhão de Reichmarks (cerca de U$ 400 mil dólares) pelos prejuízos causados pela Kristallnacht, pagos pelo confisco de 20% das propriedades de cada judeu alemão. Além do prejuízo material, os judeus foram obrigados a limpar toda a sujeira deixada pela destruição.

Após o pogrom, os judeus foram sistematicamente excluídos da vida pública.  O mesmo se estendeu a crianças e aos adolescentes que, além de não poderem frequentar lugares públicos, foram expulsos de suas escolas.

O final dessa História, infelizmente, conhecemos: o assassinato de 6 milhões de judeus, dentre eles, 1,5 milhão de crianças. Que a lembrança desses inocentes seja abençoada.

FONTES

http://www.morasha.com.br/holocausto/relembrando-a-kristallnacht.html
https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/1348469/jewish/Kristallnacht.htm
https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/kristallnacht
GILBERT, Martin. O Holocausto. São Paulo: Editora Hucitec, 2010.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O MASSACRE DAS CRIANÇAS JUDIAS EM SÃO TOMÉ

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Esta é a paradisíaca Ilha de São Tomé. 

Com uma área total de 1001 km2, a Ilha de São Tomé, a Ilha do Príncipe e outras pequenas ilhas compõem a República Democrática de São Tomé e Príncipe (capital São Tomé), um país insular africano banhado pelo Golfo da Guiné, cujo idioma oficial é o português.

A Ilha de São Tomé faz parte da História Judaica. Entretanto (e, infelizmente), não entrou pela "porta da frente" usando uma linguagem mais popular, pois foi palco de um dos mais desumanos episódios vividos pelos judeus ao longo de toda a sua existência: o massacre das crianças judias em São Tomé. Um obscuro e desconhecido capítulo da nossa História, que será assunto deste post.

CONTEXTO


Portugal, então governada por D. João II (1455 - 1495), vivia o 'boom' da era dos Grandes Descobrimentos ou das Grandes Navegações, quando a busca por rotas comerciais alternativas levou os portugueses a encontrarem novas terras não-povoadas, que, anexadas, passaram a integrar o reino português, na condição de colônias. 

Havia muito interesse em povoar essas colônias, porém, este era um processo complicado e que acarretava uma elevada despesa aos cofres do reino. D. João II lançou mão de algumas estratégias para amenizar os altos custos advindos da colonização das novas terras, dentre elas, a adoção do sistema de capitanias e donatários. O que fez o rei?

Dividiu as colônias em largas áreas de terra, as capitanias, que foram doadas a aristocratas portugueses, os donatários, que, fiéis a Portugal, tinham a incumbência de gerir e explorar, com recursos próprios, as riquezas naturais da região, destinando parte dos produtos e dos lucros aos cofres da Coroa portuguesa.  

Mas, o sistema de capitanias e donatários ainda não resolvia o problema da colonização efetiva das novas terras conquistadas.

A VIDA EM PORTUGAL


Em 1492, D João II comprometeu-se com os líderes do Judaísmo espanhol no recebimento de dezenas de milhares de refugiados judeus daquele país, forçados a deixar a Espanha pelo Édito de Expulsão dos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela.

O rei português estava de olho nos lucros advindos dos expatriados (vide post sobre D. Gracia Nassi): "Somente por interesse, foi o sombrio e misantropo rei impelido a esse ato aparentemente humano, pois, com o dinheiro dos judeus pretendia restabelecer o Tesouro do Estado" (Kayserling, p. 146).  

Os judeus espanhóis chegaram em Portugal e, somados à comunidade judaica local, perfizeram consideráveis 15% da população de Portugal (Novinsky, p. 41). Este número não passou desapercebido pelos portugueses, que, incitados por fanáticos religiosos, promoveram ataques à fé judaica, com um sem número de tentativas de convertê-los ao catolicismo.

Um outro agravante foi a proliferação da peste negra no país. Os judeus foram, mais uma vez, penalizados e acusados de causar a morte de milhares de portugueses, trazendo a doença ao país.

Pressionados, os judeus foram impelidos a deixar o país. Os que conseguiram embarcar foram massacrados dentro dos navios que os transportavam. Os judeus remanescentes foram vendidos ou doados como escravos, à revelia, para a nobreza.

Realocar parte deste grande contingente humano para as colônias resolveria pelo menos dois problemas: afastar os judeus das grandes cidades portuguesas e aproveitar o potencial humano para povoar as novas terras. Os judeus, sem opção de escolher seus destinos, eram encaminhados às novas colônias. E foi assim que Portugal conseguiu colonizar essas terras, dentre elas, a Ilha de São Tomé.

Mas D. João II não parou por aí!

A ILHA DE SÃO TOMÉ


Descoberta em 1471, a Ilha de São Tomé, também chamada de Ilhas Desertas, precisava ser habitada. Em quase vinte anos, duas tentativas já haviam sido feitas: uma, em 1490, com o fidalgo João Pereira e outra com João de Paiva. Ambas fracassaram nos seus intentos.

Em 1493, uma terceira tentativa foi feita, com a doação da terra ao distinto Álvaro de Caminha. Em carta, o rei determinava que o donatário deveria habitar na ilha, além do pacote de obrigações do sistema das capitanias.

O MASSACRE DAS CRIANÇAS EM SÃO TOMÉ


Ainda em 1493, o rei português determinou que crianças judias espanholas, de dois a dez anos de idade, filhas daqueles judeus que permaneceram em Portugal, fossem tiradas de seus pais, sem piedade, batizadas à força e deportadas à Ilha de São Tomé, para que povoassem o lugar. Dizem que o decreto atingiu também a comunidade sefaradita, que há muito habitava Portugal.
O rei enviava para São Tomé degredados, marginais, escórias da sociedade e, também, judeus.

"Quem não ouviu os soluços e os gritos dos pais, ao lhes serem violentamente arrebatados os filhos e levados para as naus, não sabe o que é tristeza, aflição e desgraça" (Kayserling, p. 152).

As cenas e os casos eram aterrorizantes. Nem os apelos desesperados das mães para que pelo menos pudessem acompanhar seus filhos foram considerados.

O cronista marrano Samuel Usque resgatou o episódio no livro "Consolações às tribulações de Israel". Publicado posteriormente em 1553, por Abraão Usque; o livro foi dedicado 
à  D. Gracia Hanassí. Segundo ele, muitas crianças foram devoradas pelas feras que habitavam o lugar.

O livro "Os judeus em Portugal", publicado em 1895, de autoria do Prof. J. Mendes dos Remédios, descreveu a problemática de uma mulher de quem haviam levados seus sete filhos:

"A desgraçada sabendo que o rei se dirigia à igreja, sai-lhe ao encontro e, lançando-se à frente dos cavalos que puxavam o coche real, suplica entre lágrimas que lhe deem pelo menos o mais novo dos filhos - "... Afastai-a da minha presença! '- disse o rei, e como as súplicas aumentassem, foi necessário afastá-la à força. 'Deixai-a' - afirmou D. João II - 'ela é como uma cadela a quem roubaram os cachorros ...'".

Das 2.000 crianças judias tomadas à força, apenas 600 sobreviveram.  

O cronista judeu Yosef Hacohen escreveu:

"Já em São Tomé, alguns judeus viraram presa fácil dos lagartos, e a maioria acabou morrendo por falta de água, comida e moradia segura".

O massacre das crianças em São Tomé foi escrito com o sangue de inocentes crianças, entrando para as páginas da História Judaica como mais um capítulo da sombria História de perseguição dos judeus.

PALAVRAS FINAIS ... NUNCA AS ÚLTIMAS


Não vou perguntar se gostaram do post, porque não acho que alguém goste de narrativas tão trágicas. Quem é incapaz de sentir em sua própria pele o sofrimento desses pais e de suas crianças, no momento da separação? Por outro lado, não podemos fazer de conta que isso não aconteceu. 

Hoje, mais do que nunca, com o ressurgimento dos movimentos antissemitas, devemos conhecer nossa História. E aprender com ela. Como sabiamente disse o rabino e historiador Berel Wein: "Conhecer o passado do povo judeu é acreditar em seu futuro". Acrescento, não repetindo os erros do passado, podemos construir um futuro melhor e mais promissor, não somente ao povo judeu, mas a toda a humanidade.

"Em nome de Portugal, quero pedir perdão aos judeus pelas perseguições de que foram vítimas em nossa terra". Mario Soares, presidente da República Portuguesa, num discurso proferido em Castelo de Vide, 17/03/1989.


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Até a próxima!

 FONTES:

http://porterrassefarad.blogspot.com/2014/01/em-1506-estariam-apenas-vivas-600.html
http://zivabdavid.blogspot.com/2013/05/judeus-em-portugal-no-seculo-xv.html
http://eshtanamidia.blogspot.com/2017/10/voce-sabia-as-criancas-judias-enviadas.html
http://www.morasha.com.br/historia-judaica-moderna/judeus-ibericos-deportados-a-sao-tome-entre-1492-8.html
CARNEIRO, Paulo. Caminhos Cruzados. Rio de Janeiro: Editora Autografia, 2015.
KAYSERLING, Meyer. História dos judeus em Portugal. São Paulo: Editora Pioneira, 1975.
NOVINSKY, Anita. Os judeus que construíram o Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2015.


terça-feira, 9 de outubro de 2018

D. GRACIA NASSI: UMA SENHORA ALÉM DE SUA ÉPOCA

Nascida em Lisboa (Portugal), em 1510, na conturbada época da Inquisição, D. Gracia (correspondente Hebraico do nome Hannah), foi batizada de acordo com os rituais católicos, recebendo o nome de Beatriz de Luna.

Seus pais, Álvaro de Luna de Aragão e Philipa Benveniste, pertenciam a uma nobre estirpe de abastados comerciantes, que foram exilados da Espanha por força do Édito de Expulsão dos judeus, em 1492, assinado pelos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela.

Mediante o pagamento de elevada soma em dinheiro, a família juntou-se a milhares de outros judeus provenientes da Espanha, que preferiram sair do país a se converter à fé católica e escolheram Portugal como um possível destino seguro. 

Na época, D. João II era o soberano do país. 

Abrindo um parênteses para melhor entendimento do assunto, o "acolhimento" dos judeus em Portugal foi motivado por interesses econômicos por parte do monarca português, que recebeu no país duas classes de judeus:

A primeira, que pagando a elevada soma de 600 mil cruzados, foi autorizada a residir no país. Cerca de 600 famílias arcaram com a exorbitante soma, dentre elas, estava a família da, ainda não-nascida, Gracia. A outra classe, com adesão de milhares de judeus, pagou 8 cruzados por adulto,  pela estada de somente 8 meses no país. Para este grupo, o Rei se comprometeu a oferecer navios, a preços módicos, para transportá-los para outros destinos.  A promessa foi parcialmente cumprida. Os judeus que ficaram em Portugal foram vendidos ou doados como escravos.


Beatriz de Luna e sua filha única Reyna

Com a morte de D. João II, em 1495, assumiu o trono D. Manuel I.

Diante da condição imposta pelos reis católicos Fernando e Isabel, para o seu matrimônio com sua filha, também chamada de Isabel, o Rei D. Manuel I decidiu também converter ou expulsar os judeus do país, assinando o Édito de Expulsão de Portugal, em 1496. Em 1497, cerca de 20 mil judeus foram convertidos à força, extinguindo a população judaica do país.

Desde então, os Mendes, sobrenome cristão adotado pelas famílias De Luna-Benveniste, viviam a vida dupla dos conversos judeus na época. 

Em público portavam-se como católicos observantes. Frequentavam a missa aos domingos e participavam das cerimônias públicas promovidas pela Igreja e pela sociedade portuguesa. 

Em casa, escondidos em porões e sótãos, praticavam o Judaísmo, crime que, se descoberto, era passível de humilhações e morte na estaca, quando eram queimados vivos nas fogueiras dos famosos e disputados Autos de Fé (cerimônias públicas onde eram lidas e executadas as sentenças do Tribunal do Santo Ofício).
                                                                                          
A FAMÍLIA DE GRACIA NASSÍ


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D. Gracia casou-se com Francisco Mendes (nome judaico Tzemach), irmão de sua mãe, em 1528, num casamento católico público; depois, na privacidade da família, houve a cerimônia judaica, inclusive com a assinatura de uma Ketubá (contrato nupcial judaico). 

Desta união, em 1534, nasceu Reyna, filha única do casal. 

Para manter segredo das práticas judaicas e evitar a assimilação, eram comuns os casamentos entre pessoas da mesma família ou entre conversos. Assim foi na família Mendes, quando Brianda, irmã de D. Gracia, casou-se com o tio Diogo Mendes (nome judaico Meir) e Reyna com o primo João Micas (Joseph Nassí). (Vide quadro acima).

Francisco, em sociedade com o irmão, Diogo, dirigia um poderoso comércio internacional, que incluía um banco, bem estabelecido em toda a Europa e ao redor do Mediterrâneo. Com os descobrimentos marítimos, a Casa dos Mendes se tornou forte no comércio das especiarias.


AS VIAGENS DE D. GRACIA


Com a morte do marido, em 1538, D. Gracia deixou Portugal clandestinamente, em direção à Antuérpia, onde se encontrou com Diogo. Em 1542, com a morte do cunhado, D. Gracia assumiu o comando total das empresas da família, assessorada pelos sobrinhos. A ida de D. Gracia a Antuérpia também foi motivada pelo estabelecimento do Tribunal da Inquisição, em Portugal e o risco que este representava à fortuna dos Mendes. A Antuérpia era, também, para ela, a primeira etapa em direção ao Império Otomano.

Sendo muito bem-sucedida na função, ganhou o respeito de um mundo, até então, dominado pelos homens. D. Gracia conseguiu influenciar reis e governantes, em prol da salvação do maior número possível de cristãos novos, retirando-os da zona de perigo, longe das garras dos Tribunais da Inquisição. Com sua fortuna e prestígio, ela conseguiu libertar muitos cristãos- novos condenados, estabelecendo para eles rotas de fugas e destino mais seguros.

Da Antuérpia, D. Gracia e sua família dirigiram-se para Veneza, onde encontraram judeus que seguiam abertamente a fé judaica. Apesar da "tolerância", os judeus viviam em guetos e usavam roupas especiais. O poder econômico fez com que estas leis não fossem aplicadas à família Mendes. 

Em 1548, com o estabelecimento da Inquisição na cidade, D. Gracia planejou efetivamente sua ida ao Império Otomano. D. Gracia enfrentou um grande desafio ao ser denunciada ao Senado veneziano, por sua própria irmã, Brianda, que a acusou de judaizar e de planejar levar sua fortuna para o Império Otomano. Duas acusações gravíssimas! 

Brianda teve suas motivações. Ela não queria ir para o Império Otomano com a irmã, ao mesmo tempo, ambicionava ter acesso e gerir a sua parte na fortuna dos Mendes da maneira que quisesse, longe do controle da irmã. Seu marido, Diogo Mendes, havia deixado a fortuna aos cuidados de D. Gracia, até que a filha do casal, Beatriz (Gracia La Chica) completasse a maioridade.

A Europa representava grande perigo aos judeus e conversos.  D. Gracia fugiu com a filha Reyna para o Império Otomano, em 1552, onde recebeu a proteção do sultão Suleiman, o Magnífico (1520 - 1566). A família se estabeleceu em Istambul.

Em Istambul, D. Gracia assumiu definitivamente o Judaísmo, passando inclusive a usar seu nome e sobrenome judaico. Lá, também realizou outro grande sonho de vida, casar sua filha Reyna, com um judeu, segundo as leis da Torá. Fato que aconteceu em 1554, quando Reyna se casou com o primo, que também assumiu o Judaísmo, Joseph Nassí.

Em 1560, ela, juntamente com o sobrinho Joseph Nassí, arrendaram a cidade de Tiberíades, na Terra Santa, das mãos do Sultão Suleiman, por uma elevada soma em dinheiro. D. Gracia tinha planos de estabelecer alguns assentamentos judaicos aos refugiados judeus da Espanha e Portugal. Muitos historiadores consideram a iniciativa de D. Gracia, como uma das primeiras iniciativas do Sionismo moderno em prol da reconstrução do Lar Judaico na Terra de Israel.  

Infelizmente, este projeto não foi levado a frente por conta da morte de sua patrona, D. Gracia, que ocorreu em 1569, em Istambul. Para mostrar sua grandeza de caráter, ela não deixou de despender muito esforço para trazer os restos mortais de seu marido Francisco, de Lisboa, para que fosse enterrado em Jerusalém, mesmo ela própria não conseguiu ser enterrada em Israel, como era de seu desejo.

A morte de D. Gracia foi pranteada por rabinos, líderes comunitários, pobres e eruditos da Torá. Homens e mulheres que tiveram suas vidas "tocadas" pela coragem e força desta valorosa mulher. 


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FEITOS DE D. GRACIA


Em Istambul, D. Gracia passou a praticar abertamente ações de Chessed (bondades), ajudando, com sua fortuna os menos favorecidos. Construiu sinagogas, Ieshivot (Casas de Estudo) e bibliotecas. Ajudou milhares de marranos a retornarem a suas raízes judaicas. Incentivou os estudos acadêmicos, principalmente, os estudantes da Torá. Publicou obras de cunho judaico, dentre elas, a primeira Bíblia em ladino, conhecida como a Bíblia de Ferrara, em 1552, que beneficiou judeus que não sabiam ler em Hebraico.

Não foi à toa que o famoso cronista judeu, Samuel Uísque, a chamou de "o coração de seu povo". E nos versos de Saadiah Lungo, poeta de Salônica (século XVI):

"De tudo o que nós mais estimamos, estamos desapossados,
Em todas as terras da tua dispersão, Ariel;
E cada cidade-mãe de Israel
Chora sobre a sorte dos seus filhos deixados na angústia,
A cintilação apagou-se;
A minha tristeza é amarga
E o meu coração quebrado."

D. Gracia ficou conhecida com Haguiveret - A Senhora, por sua benevolência para com os judeus, especialmente, durante e depois da Inquisição, que foi um dos mais sombrios e dolorosos episódios da História Judaica.


HOMENAGENS PÓSTUMAS


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Selo israelense, emitido em 2010, em homenagem aos 500 anos de nascimento da benfeitora Gracia Nassí.









 Medalha comemorativa D. Gracia Nassí





FONTES:

http://www.redejudiariasportugal.com/index.php/pt/eventos1/item/140-dona-gracia-nassi
https://www.cafetorah.com/dona-gracia-mendes-nasi-uma-mulher-judia-de-poder/
http://www.morasha.com.br/biografias/dona-gracia-nasi-1.html
http://www.morasha.com.br/comunidades-da-diaspora-1/o-tempo-dos-judeus-em-portugal.html
https://didierlong.com/2017/03/08/dona-gracia-mendez-nassi-1510-1568-lange-des-marranes/
http://www.lphinfo.com/gracia-nassi-la-grande-dame-juive-de-la-renaissance/
https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/a-senhora-1467029

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O CENSO DO POVO JUDEU

Recentemente a mídia (judaica) divulgou o número de judeus no mundo. 

As informações, procedentes da Universidade Hebraica de Jerusalém, computam 14,7 milhões de judeus. Destes, 6,6 milhões, em Israel e 5,7 milhões, nos Estados Unidos. Em terceiro, quarto e quinto lugares, com números bem inferiores, vem a França, o Canadá e o Reino Unido. A referida instituição traz ainda a taxa de crescimento dos judeus, na casa dos 0,7%, inferior à taxa de crescimento populacional global, de 1,1%. 

Os números consideram qualquer indivíduo que se julgue judeu.

A título de informação, até para que tenhamos alguns parâmetros comparativos, Revista Exame, de junho de 2013, publicou uma reportagem (com o sugestivo título "Há menos judeus do que em 1938, 70 anos após o Holocausto"), onde informa, em nome do demógrafo e pesquisador italiano, também da Universidade Hebraica de Jerusalém, que, antes da Segunda Grande Guerra Mundial (1939), o número de judeus girava em torno dos 16,5 milhões. Em 1945, ano do final da Guerra, este número baixou para 11 milhões. (O Holocausto vitimou 6 milhões de judeus, destes, mais de um milhão de crianças).

Segundo o  Museu do Holocausto de Washington, quando os nazistas assumiram o poder, em 1933, havia judeus em todos os países da Europa. Cerca de 9 milhões de judeus viviam em países que seriam afligidos com a ocupação nazista. Na época, as maiores comunidades estavam localizadas no leste europeu, em países como Polônia, União Soviética, Hungria e Romênia, seguidas pelas comunidades da Europa Central (Alemanha, França, Itália, Holanda e Bélgica).

Não podemos deixar de fazer um tributo ao Judaísmo europeu, devastado pelos assassinatos em massa e pelo confisco e pela destruição de seu patrimônio. Lojas, Sinagogas, Ieshivot (Academias de estudo da Torá), queima de livros e cemitérios depredados. Nada escapou à furia nazista.






European Jewish population distribution, ca. 1933 [LCID: eur77040]


O MILAGRE DA ETERNIDADE DO JUDEU


O livro de Bereshit (Gênesis) 15:5 (o primeiro dos cinco livros da Torá - a Bíblia judaica) traz que D-us tirou o patriarca Avraham (Abraão) para fora de sua tenda e lhe diz: "Olhe para os céus e conte as estrelas. Veja se pode contá-las. E continua: Assim será sua descendência!".

A bênção acima recebida por Abraão, chamada na Torá de Birkat Hazêra (Bênção da Descendência), trata da continuidade (e, porque não, da eternidade) do povo judeu. Assim como não é possível contar as estrelas dos céus, D-us prometeu a Abraão que seus descendentes, serão tão numerosos, que não poderão ser contados. 

O povo judeu começou muito pequeno - era apenas uma família - a família de Abraão. Quando desceram para o Egito, chefiados por Yaakov (Jacó), o terceiro patriarca, neto de Abraão, ainda somavam 70 pessoas. Cerca de 120 anos depois, quando foram escravizados, a proliferação dos judeus no Egito chamou a atenção do Faraó, que os considerou uma potencial ameaça à integridade territorial do Egito: "Os filhos de Israel estão se tornando muito numerosos e fortes" (Êxodo 1:9). Pelo menos foi essa a desculpa que o Faraó usou para justificar a escravização dos judeus! Por ocasião da saída do Egito, 210 anos depois de sua chegada, já eram milhões. 

Nesses quase três mil e novecentos anos de existência, desde Abraão, os judeus foram vítimas de exílios, perseguições, discriminações, pogroms e holocaustos. A despeito de tudo e de todos, sobreviveram e superaram as crises e as opressões. Surgiram e ressurgiram das cinzas.

Num dos primeiros posts deste blog, discorri, especificamente, sobre a maravilha da eternidade do povo judeu. (Vale a releitura desse post!). Sobre este assunto, o escritor e pensador americano Mark Twain (1835 - 1910) escreveu:

"Os egípcios, os babilônios, os persas ascenderam, encheram o planeta com ruído e esplendor e, em seguida, o seu sonho se enfraqueceu e eles se extinguiram. Outros povos surgiram e levantaram a sua tocha durante um tempo, mas se extinguiram e eles estão na penumbra hoje em dia ou desapareceram. O judeu viu a todos, enganou a todos, e ele é atualmente o que ele sempre foi, sem externar sinais de decadência, sem o abatimento da velhice, sem enfraquecimento das suas partes, sem minguar a sua energia, sem debilitar a sua mente alerta e dinâmica. Tudo é mortal, exceto o judeu. Todas as outras potências desapareceram, mas ele permanece. Qual é o segredo da sua imortalidade?"


Já o convicto católico Leon Tolstoy, em 1908, disse:

"O judeu é o emblema da eternidade. Ele, que nem o massacre, nem a tortura de milhares pode destruir, ele, que nem o fogo, nem a espada, nem a Inquisição foi capaz de eliminar da face da Terra. Ele, que foi o primeiro a apresentar a Revelação Divina, ele que, por tanto tempo, foi o guardião da profecia e que a transmitiu ao resto do mundo. Esta nação não pode ser destruída. O judeu é perpétuo como a própria eternidade".

A bem da verdade, a perenidade do povo judeu é, ainda, fonte de estudos e de uma grande interrogação para muitos estudiosos. Mas, nem tanto para os próprios judeus, que testemunharam ao longo da História muitas tentativas de exterminação, conforme traz a Hagadá de Pessach: "Não somente um (povo) se levantou contra nós (judeus) para nos aniquilar. Mas, em cada geração houve quem tentasse ...".

A historiadora canadense Josephine Bacon complementa que "a sobrevivência do povo judeu através dos tempos tem sido um fenômeno extraordinário e sem paralelo" (Atlas Ilustrado da Civilização Judaica, 1990).

Acreditando ou não, a Benção da Descendência vem se concretizando pelo tempo, mantendo os judeus e, apesar de seguirem na contramão do que seria o curso natural da História, os judeus permaneceram e continuam a escrever a sua História.


Espero que tenham gostado!

Qualquer dúvida, entre em contato comigo pelo email
miriam.i.benzecry@gmail.com

Até lá!


FONTES:

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O "JUDAÍSMO" DE D. PEDRO II

No início do mês de Setembro, os meios de informação se voltaram para a notícia do incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Devorado pelas chamas, o Museu era considerado um patrimônio científico e histórico brasileiro. 

As perdas foram inestimáveis, já que 90% do acervo, cerca de 16 milhões de peças, foi destruído. Entre outras peças, encontravam-se uma das maiores coleções paleontológicas da América Latina, o trono do rei africano Adandozan (1718 - 1818), além de incontáveis itens e coleções, recolhidos, ao longo de seus duzentos anos de existência.

Depois dos primeiros momentos de comoção pela lastimável perda, outra notícia ganhou destaque nos noticiários nacionais e internacionais: A Torá que pertenceu a D. Pedro, e que supostamente teria que estar no Museu, "escapou" quase que milagrosamente da devastação do fogo.

Sobre esse assunto é natural que sejam feitas, pelo menos, duas grandes perguntas: como a Torá foi "parar" no referido Museu, como peça de seu acervo e, a outra, como ela se "salvou"?


Pergaminhos da Torá escapam de incêndio no Museu Nacional


MUSEU NACIONAL


O Museu Nacional foi fundado por D. João VI (1767 - 1826), rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 06 de junho de 1818, com o objetivo de promover o progresso cultural e econômico do país. Inicialmente, recebeu o nome de Museu Real, que funcionava em outro local. Posteriormente foi transferido à sua localização atual, um palácio que serviu de residência à família real até a dissolução do regime monárquico no Brasil, em 1889, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. 

Desde de 1946, o Museu era administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma instituição pública, vinculada ao Ministério da Educação e era considerado o maior da América Latina, em Antropologia e História Natural. 


PERGAMINHOS IVRIÍM


Dentre o acervo relacionado ao referido Museu, integrante da Coleção Egípcia, encontram-se nove rolos de pergaminhos da Torá (a Bíblia judaica), chamados de Pergaminhos Ivriím.


Escritos em Hebraico consonantal quadrático, popularmente chamada de "letra quadrada", pertenceram a D. Pedro II (1825 - 1891), 2º Imperador do Brasil, que os adquiriu por ser um estudioso e admirador do Judaísmo e da Cultura Judaica, numa viagem à Europa e Oriente Médio, entre os anos de 1876 e 1877.

Segundo informações, os pergaminhos, que datam de até mil anos, são pessulim, ou seja, estão em desacordo com a Halachá, a lei judaica. Eles foram confeccionados em couro de novilho, de coloração acastanhada e matizes avermelhadas (os pergaminhos usados nos rolos da Torá nas sinagogas tendem para o creme), costurados com fios de linho (os fios usados na costura dos pergaminhos devem ter origem animal) e compilados com tinta preta, de origem vegetal. A escrita está relativamente preservada.

Devido à importância histórica, foram tombados pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em 1998.


COINCIDÊNCIA OU MILAGRE REVELADO?


Antes do incêndio, os manuscritos foram levados para restauração, do Museu Nacional para a Biblioteca do Horto, na Quinta da Boa Vista, e colocados na seção de Obras Raras. Coincidência ou milagre, os pergaminhos foram salvos da destruição certa.

D. PEDRO II


D. Pedro II possuía uma ligação profunda com o Judaísmo e com os judeus, ao ponto de ser fluente na língua hebraica e era profundo conhecedor da Torá. Inúmeras são as histórias que constatam essa ligação. 

Coroado aos 15 anos, D. Pedro II era um amante da cultura e das artes. Ainda na infância mostrou talento para as línguas. Dominava o Inglês, o Francês, o Italiano, o Grego e o Latim. Até aqui, nada demais, afinal ser poliglota era quase que uma obrigação para quem no futuro seria coroado rei. O que poucos sabem é que D. Pedro II era fluente em Hebraico, mais, era seu idioma predileto. Ele gostava de falar, ler, ouvir e escrever neste idioma.

O interesse do soberano pelo Hebraico começou quase por acaso. Certa vez, ao caminhar pelos jardins do palácio encontrou um dicionário de Hebraico (segundo outra versão, o Imperador encontrou uma Bíblia, em Hebraico). Gostou muito. D. Pedro contratou um professor para que o ensinasse. Dizem que tal apego pela cultura judaica veio como forma de compensar as injustiças sofridas pelos judeus em Portugal na época da Inquisição, quando inclusive, os judeus foram expulsos ou convertidos à força, em 1496. 

Outro caso.

Conta-se que certa vez, ao oferecer uma recepção aos judeus da Alsácia (França), o Imperador recebeu seus convidados usando o Hebraico. Ao perceber que não falavam o idioma falou:
"Que espécie de judeus são vocês que não falam a língua sagrada!".

D. Pedro II queria estudar a Bíblia na sua língua original, o Hebraico. O Imperador traduziu alguns livros do Tanachdentre eles, o Livro de Jó e o Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos), do Hebraico para o Grego, para o Latim e para o Português.

Eça de Queiroz (1845 - 1900), um dos mais importantes escritores portugueses, publicou um artigo, em 1872, ridicularizando o Imperador por sua paixão pelo Hebraico. Ele escreveu: "Sua Majestade, conhecido pela modéstia nos costumes e nas iguarias que impõe no palácio real, tem na verdade uma gula especial e única - a língua hebraica. Por não levar acompanhante em suas longas e tediosas viagens por trem, assim que chega, faminto, ao seu destino, sendo festivamente recebido, só sabe balbuciar: 'Hebraico!'".

Eça de Queiroz continuou destilando ironias:

"Certa vez, quando recebido com pompa nos palácios reais ingleses e solicitado a exprimir suas vontades e preferências, exclamou com voz sofrida: 'Hebraico!'. Os oficiais da recepção, espantados, tiveram a genial ideia de levar o Imperador a uma Sinagoga. Rodeado por judeus imersos em suas orações, pôde deglutir D. Pedro, com muita curiosidade e satisfação, porções sem fim de Hebraico".


SINAGOGAS


A historiadora Sonia Sales escreveu que em todos os lugares que D. Pedro II visitava, procurava ir às Sinagogas. Apesar de manter sua postura modesta aos locais, causava deslumbre ao se dirigir num Hebraico fluente aos judeus, apesar de não ser judeu.


LIBERDADE RELIGIOSA


D. Pedro II consolidou a liberdade religiosa, iniciada por seu pai, D. Pedro I. Foi de sua autoria o decreto de lei, que data de 28 de Janeiro de 1873, oficializando a entidade União Israelita do Brasil, que, mais tarde, se tornou a importante Sinagoga Sefaradita Shel Guemilut Chassadim, no Rio de Janeiro.



VISITA A JERUSALÉM


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                                              D. Pedro II em visita a Jerusalém


Em 1876, numa visita à Terra Santa, D. Pedro IIparticipou de um Kabalat Shabat (oração de recebimento do Shabat), no Kotel Hamaaravi (Muro das Lamentações). E, foi, provavelmente, nesta viagem, que adquiriu os rolos da Torá, que fazem parte do acervo do Museu Nacional.

EXÍLIO E FALECIMENTO


D. Pedro reinou de 1841 a 1889.

Deposto, por ocasião da Proclamação da República (1889), pelo Marechal Deodoro da Fonseca, exilou-se em Paris, onde veio a falecer 2 anos depois, em 5 de Dezembro de 1891.

No livro "O Hebraico vivo através das gerações", publicado em 1992, o professor Shlomo Haramati escreveu:

 "Não há dúvidas que seu profundo interesse pelo Hebraico, em seus últimos anos de vida, resultava de ser esta, a língua de um povo que vivia na Diáspora, estando ele próprio solitário e longe de sua pátria".

Por ocasião de sua morte, o escritor e biógrafo Israel Isser Goldblum (1843 -1925), escreveu em artigo publicado no jornal Hatsfirá (A Sirene), editado em Varsóvia (Polônia):

"Bem aventurados aqueles que viram D. Pedro II, Imperador do Brasil, e ouviram-no falar a língua sagrada. Bem aventurados todos aqueles que o saudaram e foram por ele saudados".



Espero que tenham gostado!

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miriam.i.benzecry@gmail.com

Até lá!

FONTES:

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45391771

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/pergaminhos-da-tora-escapam-de-incendio-no-museu-nacional

SALES, Sonia. D. Pedro e seus amigos judeus. 2011.





segunda-feira, 3 de setembro de 2018

18 DE ELUL 2/2

CHASSIDISMO

Para melhor compreensão do texto, leia o post anterior 18 de Elul 1/2.

Para desassossego dos judeus, o  Massacre de Chmielnicki não foi a única onda de terror que assombrou as comunidades judaicas naquela época e região. Vez por outra, eles enfrentavam pogroms, perseguições e muita discriminação. Muito menos, as sementes dos falsos Messias foram extirpadas com Shabtai Tzvi. Anos mais tarde, os judeus assistiram ao surgimento de Jacob Frank (1726 - 1791), outro que se auto-proclamou o Redentor do povo e que, como seu antecessor, teve um final não menos trágico (Frank converteu-se ao Catolicismo).

Os judeus viviam uma vida miserável. Além da pobreza absoluta, enfrentaram dentro do seio do povo judeu um outro "fantasma": o distanciamento existente entre os estudiosos da Torá e os judeus mais simples, os chamados iletrados. A lacuna entre essas classes de judeus era enorme. Na época, era comum a ida de "pregadores" - os Maguidim, às sinagogas para admoestar o povo por suas ações, somando ainda mais sofrimento e culpa.

O Chassidismo, inicialmente na figura de Baal Shem Tov e do grupo dos Tzadikim Nistarim (justos ocultos), vieram para quebrar este paradigma e muitos outros.  Elevar o status do considerado judeu "simples",  às vezes, confundido com o "sem valor". Dar-lhes autoestima. Fazê-los acreditar que também eram queridos aos Olhos de D-us.

Mas o Chassidismo foi muito além. É verdade que o trabalho era focado nos menos favorecidos e nos iletrados, porém, como sua filosofia atendia, também, às expectativas dos estudiosos da Torá, dando-lhes uma nova perspectiva sobre D-us, o mundo, o ser humano e as mitzvot (mandamentos divinos), muitos eruditos passaram a integrar o movimento. Logo, o movimento chassídico cresceu e espalhou-se por toda a Europa.

Para todos, o Chassidismo era uma filosofia de vida e a própria vida, entrelaçadas. Cada judeu "pegou" aquilo de que ele precisava para crescer espiritualmente e não se deixar abater pelo desespero em virtude das grandes dificuldades materiais. 


CHASSID(IM)


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Chassid (Chassidim, no plural), em Hebraico, pio e observante, é o termo aplicado ao adepto do movimento, que surgiu no século 18 denominado de Chassidut ou Chassidismo. 

BAAL SHEM TOV (1698 - 1760)


Ver a imagem de origem


                  Sinagoga do Baal Shem Tov, em Mezibuz (Ucrânia), destruída pelos nazistas 


Filho único de pais de idade avançada, o pequeno Israel ficou cedo órfão de pai e mãe. Seu pai, o grande tzadik Rebe Eliezer, antes de morrer, deixou-lhe os seguintes ensinamentos, que serviram de linhas mestras ao longo de sua vida. Um, se referia ao temor e, o outro, sobre o amor. 

Sobre o temor, ele ensinou ao filho, o temor a D-us:"Não tema a ninguém, só a D-us Todo Poderoso!". Com relação ao amor, Rabi Eliezer ensinou que este deve ser praticado e disseminado a todos os judeus, indiscriminadamente, não importa onde estejam e em que nível se encontrem. Ele ensinou: "Ame a cada judeu de todo coração e de toda a sua alma!".

Com a morte dos pais, a comunidade judaica assumiu as despesas e a responsabilidade com a educação de Israel.

Israel gostava de isolar-se pelas florestas e campos, onde, em contato com a natureza, estreitava sua relação com D-us, Criador dos céus e da terra. A princípio, este comportamento causou estranheza, mas, com o passar do tempo, os líderes da comunidade acabaram "desistindo" de mudá-lo. Foi numa dessas "idas" à floresta, que encontrou um judeu profundamente concentrado na tefilá. 

Atraído pelas doces melodias e pela Kavaná (literalmente, intenção; num sentido mais profundo e contextualizado, significa que ele rezava com diligência, colocando todo o seu coração e alma, em cada palavra da tefilá), o jovem rapaz passou a frequentar a floresta diariamente, para estudar Torá com o "estranho". 

Muito tempo depois, esse homem foi relacionado ao grupo de Tzadikim Nistarim (justos ocultos), judeus que se passavam por pessoas simples e eram grandes eruditos da Torá.

Depois, o acompanhou,  viajando de cidade em cidade, ensinando Torá e motivando os judeus a seguirem em frente, apesar da situação de escuridão e de tristeza vivida na época. Nessas viagens, Israel Ben Eliezer trabalhou como assistentes de Cheder (escola de meninos), cuja função era a de buscar e levar as crianças da casa para a escola. No trajeto, contava histórias judaicas para despertar no coração das crianças o amor a D-us e Sua Torá. 
Ainda jovem, juntou-se ao grupo de Tzadikim Nistarim, discípulos de Rabi Adam Baal Shem (1680 - 1734). Os ensinamentos obtidos de seu mestre alicerçaram o que futuramente seria chamado de Chassidismo. O Baal Shem Tov herdou vários manuscritos cabalísticos do Rabi Adam Baal Shem.

Israel Ben Eliezer foi casado por duas vezes. Sua primeira esposa morreu logo após o casamento. Com a segunda esposa, Chana, irmã do grande erudito da Torá, Rabi Avraham Guershon Kitover (Polônia), teve dois filhos, Odl e Tzvi Hersch.

Passou longos dez anos de sua vida em reclusão e, segundo contam, recebeu instruções diretamente de Achiá, de Shiló (Hashiloni), profeta da época do Rei David, que aparecia-lhe periodicamente. Em carta enviada a seu aluno Iaakov Iossef Hacohen, ele escreve que as aparições do referido profeta começaram no dia de seu aniversário de 26 anos, no meio da noite, na cidade de Akop.


Somente um justo, da estatura do grande Israel Ben Eliezer, seria merecedor de tal aparição e de receber tais ensinamentos sagrados e esotéricos.

Aos 36 anos, estabeleceu-se em Mezibuz (oeste da Ucrânia) e passou a difundir publicamente a Chassidut, atraíndo discípulos e simpatizantes do movimento. Recebia diariamente a visita de judeus de todas as partes do mundo, que vinham aprender de seus ensinamentos. Foi aí que passou a ser conhecido como Baal Shem, fazedor de milagres e revelador de conhecimentos profundos da Torá.

No dia 6 de Sivan (1º dia de Shavuot), aos 62 anos, Israel Ben Eliezer faleceu, deixando um legado de ensinamentos e grandes histórias, ainda hoje narradas e que inspiram milhares de judeus. No mundo judaico ficou conhecido como Baal Shem Tov, o Mestre do Bom Nome.

O Baal Shem Tov não deixou nenhuma obra escrita, mas seus ensinamentos e feitos foram registrados por seus discípulos, em obras e coletâneas, dentre elas, o livro Keter Shem Tov, publicado em 1794, mais de trinta anos após a morte do grande mestre.

ALGUNS ENSINAMENTOS DO BAAL SHEM TOV


Todas as criaturas são governadas pela Hashgachá Pratit, a Divina Providência. Mesmo uma simples folha derrubada pela brisa, só cai da árvore porque assim foi determinado pelo Criador, para um fim específico (existe intencionalidade nos acontecimentos). Assim, todos os eventos que acontecem no mundo têm um propósito determinado pelo Criador.

Outro ensinamento do mestre chassídico diz respeito à  renovação da Criação com a fala, processo este constante, exatamente como aconteceu nos seis dias da Criação, quando o mundo foi criado com os dez ditos, conforme está escrito no livro de Tehilim, os Salmos de David, no capítulo 119:89: "E permanente é Sua palavra, que ecoa nos céus".

Diferente de qualquer criação humana, que, ao ser completada, o autor se afasta da obra. Como por exemplo: uma pintura, que, ao ser finalizada, existe independente de seu criador (no caso, o pintor). As obras divinas continuam a se sustentar e a existir tão somente por essas 10 falas, repetidas constantemente pelo Criador. Sem elas, essas criações voltariam ao estado inicial antes de serem criadas.

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Devido à riqueza de aprendizado do grande mestre chassídico, Baal Shem Tov, deixaremos para falar do Rabi Shneur Zalman de Liadi, nascido também em 18 de Elul de 1773, no próximo post.

Espero que tenham gostado!


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